Consueloblog · Cris · Minhas "croniquetas"

Amar a imperfeição

1437512048387

Amar a imperfeição

Cris M. Zanferrari

Gosto das coisas perfeitas. Bem-feitas, bem-acabadas, redondas. Sim, redondas, porque tudo o que é circular encerra em si essa ideia de perfeição, de completude. E quem é que não quer se sentir completo ou perfeito?

Quando nos cercamos de coisas perfeitas, é como se nos aproximássemos, de alguma forma, da própria perfeição. Gosto do alinhamento dos quadros na parede, da minha Le Creuset vermelha sem nenhum arranhão, dos tapetes limpos e imaculados, das roupas bem passadas, dos livros alinhados, da ordem e do progresso (ao menos no que tange à vida pessoal). Gosto quando o bolo assado sai inteirinho da forma, quando o suflê não desanda, quando consigo cumprir todos os prazos. Gosto quando encontro facilmente as coisas porque estão bem organizadas e não é custoso ou perda de tempo apanhá-las. Gosto de pensar que_ às vezes, mas só às vezes_ as coisas estão perfeitas. E que a vida assim não só é melhor como é possível.

Mas as coisas, como as pessoas, sofrem desgastes. Sofrem pelo uso e pela ação do tempo. Desbotam, lascam, se desalinham, se descompõem. As coisas, como as pessoas, são dadas à imperfeição. E o imperfeito não é de todo feio. Nem condenável. A primeira vez que dei por uma pequena lasca em minha Le Creuset vermelha, quis chorar. De pura raiva. Tinham-lhe roubado o aspecto de coisa nova, de coisa perfeita. Não era mais a chaleira mais bonita do mundo. E no entanto, ainda servia para o uso, o que tornaria uma aberração o seu descarte. Não me restou senão aquiescer. Habituei-me a vê-la assim, com um discreto machucado, como uma pessoa se habitua a uma cicatriz.

Sim, é possível habituar-se à imperfeição. Desde que se perceba que as coisas imperfeitas são, na verdade, imperfeitas porque usadas, manuseadas, vividas. Só o que não tem uso ou vida permanece intacto, incólume. E o que é desprovido de uso ou vida é também desprovido de valor.

Leia-me bem: não se trata de deixar a casa cair, de não se fazer reparos ou manutenções. Nem de negligenciar o estado terminal de certos objetos ou  relações. Trata-se apenas de uma espécie de aceitação daquilo que não pode ser mudado porque mudado está. Aceitar que as coisas, ou relacionamentos, só têm continuidade e permanência quando_ ao consentir que se encontrem mudados_ mudamos também. Serve pra minha chaleira. Mas pode bem servir pra todo o mais.

Continuo gostando das coisas (aparentemente) perfeitas. Continuo gostando das coisas organizadas e de quando tudo dá certo. Mas estou aprendendo a amar a imperfeição. Não só a das coisas. Também a das pessoas, a dos relacionamentos, a da natureza. Porque no centro de toda imperfeição está a mudança, o movimento, que nos impõem  lançar mão de um novo olhar sobre o mundo. Sem esse olhar resvalamos para um perfeccionismo que neurotiza, frustra e decepciona, porque jamais será real. O real é da ordem do imperfeito. E não raras vezes, pode ser belo e bom.

E há, finalmente, aquelas imperfeições que só nós mesmos conhecemos, sejam do corpo, sejam da alma. As mais íntimas, mais resguardadas. Não há que revelá-las. Tampouco esforçar-se para ocultá-las. Há apenas que saber com elas conviver. Só aprendemos a amar a imperfeição quando nela nos reconhecemos.

Gosto, sim, de pensar que as coisas_ às vezes, mas só às vezes_ estão perfeitas. Mas também gosto que estejam_ no mais das vezes_ imperfeitas. Vê-las como são, em sua mais completa imperfeição, me aproxima do que é real. E descubro a cada dia que a vida assim não só é possível como é (bem) melhor.

Anúncios

8 comentários em “Amar a imperfeição

  1. Querida Cris,

    Descobri seu instagram a poucos dias. Tenho a sensação,e certeza, que descobri um tesouro. Estou encantada por seus escritos. Por favor não pare de escrever e dos inspirar. Um forte abraço…Liliane (das Minas Gerais)…

    Curtir

    1. Querida Cris,

      Descobri seu instagram a poucos dias. Tenho a sensação, e certeza, que descobri um tesouro. Estou encantada por seus escritos. Por favor não pare de escrever e de nos inspirar. Um forte abraço…Liliane (das Minas Gerais)…

      Curtir

      1. Querida Liliane!!
        Muito obrigada pelas carinhosas palavras!
        Fico muito feliz que esteja gostando… saber disso é sempre um incentivo e uma responsabilidade…kkkk…
        Seja muito bem-vinda, querida!!
        Beijão

        Curtir

  2. “…ao consentir que se encontrem mudados_mudamos também.”
    Cris, isto é tão verdadeiro! Muitas vezes nosso senso crítico não acredita em mudanças, nem nossas (mais difíceis de perceber), nem dos outros (e quantas atitudes recorrentes nos levam a esta crença), quando, de repente, a coisa anda, uma fagulha de mudança acontece e a esperança renasce. Aquele pinguinho de mudança de rota faz renascer. Beijos querida

    Curtir

    1. Exatamente, querida Marina!!!
      Em “O Paraíso são os outros”, se lê algo que está relacionado a essas mudanças de rota. Diz assim: “[…] grandes são os que se corrigem.” Acho que amadurecer é estar em constantemente corrigindo também a rota.
      Obrigada pela amorosa presença!
      Bjo grande

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s