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“Território interior”

“Território interior”

Cris M. Zanferrari

Dia desses alguém me aconselhou: “Cuide-se. Se você não se cuidar, não poderá cuidar dos outros.” Compreensível para quem, como eu, é mulher, com trabalho, família e filhos, incluídos o cachorro e o papagaio (este último é só um modo de dizer, se me permitem fazer uma graça). Compreensível para quem é mulher. Ponto. Ser mulher já é em si trabalhoso, o que dirá com todos esses periféricos. A gente se desdobra (“mulher é desdobrável”, recordo Adélia) para dar conta do mundo. Mas como é mesmo que a gente cuida de si?

Ah, sim, as revistas, especialmente as femininas, recomendam reservar um tempo da semana para se fazer algo em benefício próprio e sem sentimento de culpa, o que pode significar desde bater perna no shopping até fazer aulas de yoga, passando por alguma terapia ocupacional ou simplesmente se jogar no sofá tendo por companhia tão somente uma bela playlist.  Que ajuda, ajuda. Desde que não se esteja vendo as vitrines e consultando o relógio ao mesmo tempo, afinal há que se pegar o filho no inglês. Ou que se esteja no meio de um ásana enquanto a mente programa o cardápio do dia seguinte. Ou ainda que se esteja ouvindo a melhor música da seleção quando se lembra que esqueceu de cancelar aquela consulta ao dentista. Cuidar de si? Mais fácil cuidar dos outros.

Enquanto cuidamos dos outros ficamos assim, desobrigadas do cuidado conosco. Porque se cuidar não é coisa que requeira apenas tempo. Cuidar-se requer uma boa dose de entrega, e é tão difícil se entregar. Entregar-se para o momento, permitir-se usufruir do instante, colher o minuto presente com o cuidado e a atenção de quem atravessa uma rua. Entregar-se é um ato de quem acredita merecer.

Claro, a gente merece que nos cuidem um pouquinho quando adoecemos, quando sofremos uma fratura, um acidente, ou uma perda. Chegamos a aceitar que nos acompanhem ao médico, que nos façam um chá, que nos façam companhia. Fragilizados, nos sentimos merecedores.  Mas e quando estamos bem? Por que relutamos em aceitar ou solicitar certos cuidados? Desconheço os mecanismos psicológicos (quem sabe até antropológicos) que nos inibem,  nos resguardam, nos tolhem a capacidade de receber afeto em forma de cuidado, mas vou chegando à humilde conclusão de que cuidar de si é também deixar-se cuidar pelo outro.

Quando se aceita, genuinamente, um agrado ou um simples elogio, é como se reconhecêssemos nossa humana fragilidade, e com ela toda a necessidade que temos de receber, de vez em quando, um certo tipo de amparo. Qualquer um. Que funcione como um lembrete de que não nos bastamos, e de que, apesar de irremediavelmente sós, temos uns aos outros. Saber-se cuidado e bem quisto pelo outro é, por si só, garantia de alguma saúde emocional.

Lembro de Caio Fernando citando Adélia: “É preciso preservar o território interior”. Mas como?, pergunta-se Caio, pergunto-me eu, perguntamo-nos todos. E penso, subitamente, que sempre há a possibilidade da introspecção. Quando calados, imersos no próprio turbilhão mental, ainda podemos tentar silenciar. Não o silêncio que é ausência de ruído ou de palavras, mas o silêncio que suspende o julgamento e que nos lança para dentro de nós mesmos. Algo assim como um resguardar-se, guardando para si certas opiniões (ou até mesmo o direito de não ter de opinar sobre tudo o tempo todo), sendo mais autoindulgente diante de um brigadeiro ou de faltar à academia, sendo mais autocomplacente diante do espelho e da opinião alheia.

Cuidar de si mesmo deveria ser simples como olhar a chuva caindo lá fora. Mas porque não o é, é que existem no mundo arte, literatura, flores, crianças e animais. Pequenas ternuras com as quais também é possível preservar e abastecer nosso “território interior”.

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8 comentários em ““Território interior”

  1. Belo belíssimo texto! As mulheres trazem consigo, desde sempre, deveres múltiplos; alguns impostos pela vida cotidiana outros da cultura feminina. Temos que tomar consciência do excesso de peso que carregamos! Abraços.

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  2. Caramba, que texto maravilhoso! Sobre um tema tão pouco explorado, mas, ao mesmo tempo, tão verdadeiro e cotidiano.. Esse merecia uma publicação na revista Claudia (rsrs).
    Não costumo comentar em sites, mas deixo aqui meu registro de que estou adorando o seu blog. Virou leitura diária!

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  3. Lindo lindo texto Cris!
    Um assunto sempre tão recorrente, tantas tarefas q às vezes esquecemos de nós.. mas não adianta, temos q tirar a capinha dos super poderes e olhar p o nosso ”território interior”..
    De minha parte penso q a maturidade ( q afinal tem q ter seus pontos positivos heheh) está me dando uma certa sabedoria de como aproveitar bem meu tempo disponível em coisas q me fazem bem, e a literatura sem dúvida é uma delas. 🙂
    Parabéns Cris o blog tá lindo, inteligente, doce como a poesia 😉
    bjus bjus

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