Cris · Livros · Palavras ao vento

“Conforte-me com maçãs” (ou: da importância dos títulos)

Livros me seduzem desde sempre, porque meu universo é o da palavra. Escrita, diga-se de passagem. Escrevendo, pode-se falar “pra caralho”, ensinou Caio Fernando. Daí que o universo dos livros é também o universo das palavras, é onde elas fazem morada. Daí que o título de um livro é, portanto, a porta da casa que se abre para esse universo. Portas há que convidam a entrar, por sua beleza e delicadeza, ou porque instigam a curiosidade. Outras também há que repelem de tão gastas, ou porque cheiram a estabelecimento comercial. Mas há que se estar especialmente atento àquelas que aparentam e prometem um interior repleto de encantos que não resiste ao primeiro passo depois da soleira.

Títulos podem ser atraentes, promissores, obscenos, provocadores, líricos, enigmáticos, burocráticos, restritivos, repulsivos, mas nunca são de todo ‘inofensivos’. Por um título, já tive arroubos de paixão ou cometi suicídio literário.

Sim, já deixei-me seduzir por uma capa e seu título como um homem por um rabo-de-saia. Foi assim com um livro chamado “Conforte-me com maçãs.” Capa linda, título bíblico, mas, para um livro escrito por uma crítica de gastronomia, um tanto quanto, digamos, insosso. Ao menos, assim pareceu ao meu paladar literário.

Com  outros, tive mais sorte. Foi o caso, por exemplo, de “Fazes-me falta”.  Na capa, um espelho fragmentado, a refletir o nada, a ausência. A imagem a costurar o sentido contido no dizer, que podia ser uma súplica, ou uma amarga constatação: “Fazes-me falta”.  Da portuguesa Inês Pedrosa, o estranho (porque espectral) diálogo entre um homem e sua amiga morta é de uma dolorosa  nostalgia pelo que não foi quando poderia ter sido, mas é, sobretudo, um romance a nos fazer ver o quanto somos avaros no amor. “Tanto que eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha para te dar. Racionei-o a vida inteira […]_ por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?” “Fazes-me falta” é mais que um título. É quase um verso que se pode ouvir_ se quer ouvir_ da pessoa amada.

No mais das vezes, escolho meus livros como quem calça sapatos velhos e confortáveis: escolho os já conhecidos. Autores de linguagem, mais do que de histórias, têm a minha preferência. Passeio entre poetas, filósofos, cronistas e romancistas sem me importar com a capa ou o título porque, nesses casos, sei que hei de encontrar um universo de beleza para muito além da porta principal.

E a propósito do título deste post,  preciso dizer:  a mim, a confortar-me, prefiro que seja com flores. Ou poesia. Que é também uma forma de perfumar a vida.

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