Cris · Minhas "croniquetas" · Resenha

Lição de Amizade

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Lição de amizade

Cris M. Zanferrari

Adam Lerner é jovem. Tem 27 anos e um câncer. De um tipo raro, mas nem tão raro como se descobrir jovem e com câncer. Adam Lerner é o protagonista do sensível e contundente “50/50”.

Não sei o que diz a crítica especializada sobre o filme e, francamente, não me importa. Não que eu menospreze a bagagem cultural e o profundo conhecimento de artes cênicas dos críticos. Não é isso. O que ocorre é que cada vez mais percebo que as impressões acerca de uma obra _seja uma tela, um filme, um poema , uma peça teatral_ dizem respeito unicamente à subjetividade do nosso olhar. Ou seja, o território das emoções alheias é vasto demais para caber na mais bem intencionada das críticas. Ou nos toca, ou não nos toca. Simples assim.

Pois bem. “50/50”, ou “50 por cento” como foi traduzido, com seu enredo (aparentemente) piegas, me tocou. Não sei se conseguirei me explicar, porque o que é do campo das emoções nem sempre se colhe através de palavras. O fato é que a história mostra todos os estágios pelos quais uma pessoa passa ao se descobrir com uma doença fatal. São fases que vão do estado de choque à aceitação, passando pela negação e resistência. Nada disso me comoveu. Nem mesmo a veterana Angelica Houston no papel da mãe excessivamente protetora e devastada pela situação. O que me encheu de ternura foi algo talvez um tanto óbvio, como tantas obviedades que_ de tão óbvias_ passam batidas: o valor da amizade.

Kyle é o amigo-de-todas-as-horas de Adam que não hesita em usar o câncer alheio como pretexto para atrair mulheres. É bizarro, mas é apenas o melhor amigo sendo quem ele é. Porque amigos se solidarizam com a nossa dor, mas têm a sua própria vida. Podem sofrer junto, mas não em nosso lugar. Não abandonarão o seu jeito de ser por nossa causa _e se os queremos bem, talvez seja precisamente por serem como são. Amigos de verdade seguem com suas vidas sim, mas não se afastam, não recuam, apenas fazem o que melhor sabem fazer, nos momentos de alegria ou de dor: se fazem presentes. Como Kyle se fez. O tempo todo.

Existem, claro, amigos que mesmo à distância ligam ou escrevem, dão notícias, pedem por notícias, demonstram carinho e se importam. De alguma forma, estão por perto mesmo estando distantes. Mas vamos combinar, não há whatsapp ou skype que possa suprir o que só a presença física nos traz: a possibilidade do toque. Precisamos da densidade do outro, da mão no ombro, da mão na mão, do abraço que dispensa as palavras porque é pleno de sentidos. Precisamos enxergar a gargalhada sincera do outro, o olhar marejado, o tique nervoso, a covinha na maçã do rosto, o furinho no queixo. Precisamos que tudo seja tridimensional, concreto, palpável, que esteja a um toque das mãos e a poucos centímetros do olhar. Precisamos do outro na vida que é real, para nos adensar, para nos expandir, para nos sabermos também reais, e um pouco menos sós .

50/50 está longe, bem longe, de ser um “filmão”. Muito provavelmente não o assistirei uma segunda vez. Não será preciso. A lição que tirei dele se aprende de primeira, e na verdade me foi dada muito antes de assisti-lo, me é dada diariamente, no que a vida tem de mais cotidiano: haver gente que nos dá, e a quem também damos, a mais pura amizade. E “amizade dada é amor”, já dizia o mestre Rosa pela voz de Riobaldo. Pode haver lição mais bonita do que essa?

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O trailer oficial do filme você pode ver em https://www.youtube.com/watch?v=vyEmMbhbIT0  Você também poderá encontrá-lo no Netflix.

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6 comentários em “Lição de Amizade

  1. Olá minha querida Cris!

    Parabéns p blog, fiquei muito feliz com a novidade! ( eu ainda não sabia) com certeza muito mais que um ponto de encontro,um lindo espaço de cultura e poesia. Adorei Cris! 🙂

    Grande beijo

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  2. PS Cris sobre a amizade deixo uma frase q acho linda de Clarice Lispector..
    “Um amigo me chamou pra cuidar da dor dele,guardei a minha no bolso…
    E fui..”
    bjs

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    1. Mari querida!!
      Essa passagem é lindíssima, mas não é da Clarice Lispector. É de uma crônica do Caio Fernando Abreu e está no livro “Pequenas Epifanias”. Infelizmente, há muitos apócrifos (falsas autorias) na internet, e a única forma de saber é beber direto da fonte, ou seja, dos livros!
      Bjo, querida!

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      1. Nossa Cris! E eu já tinha passado até p a minha agendinha hehe
        Na verdade eu li on line apenas uma parte de Pequenas Epifanias mas não todo o livro.. pois por aqui tá bem difícil conseguir 😦
        Obrigada p correção
        Beijos

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