Cris

Mosaico textual para Caio

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“Hoje quero escrever qualquer coisa tão iluminada e otimista que, logo depois de ler, você sinta como uma descarga de adrenalina por todo o corpo, uma urgência inadiável de ser feliz. Ser feliz agora, já, imediatamente.”

Caio Fernando Abreu

 Tenho mania de citação. É como se as aspas, esse sinal gráfico que indica a fala de outrem, estivessem o tempo todo ali, só esperando o momento exato de se manifestar. E elas se manifestam o todo o tempo. Vejo uma ponte, e penso em Bakhtin. Olho um poente, e cito Pessoa. Ouço histórias, e lembro de Mia Couto. Se a fé me falta, recito Adélia Prado. Pode parecer esquisito, como toda mania. Cada um com a sua.

Digo tudo isso porque a mania da vez tem sido citar Caio. É que ando lendo _ tardiamente_ Caio Fernando Abreu. Digo tardiamente porque lembro de colegas da faculdade reverenciando Caio a partir de “Morangos mofados”. Lembro de, à época, ter folheado o livro e me desinteressado daquele autor assumidamente homossexual, de olhos estranhos, e gaúcho. Colonizada pela literatura norteamericana, como admitir que um conterrâneo, não sendo Érico Veríssimo, pudesse ter talento? Puro (mas felizmente remediável) preconceito juvenil. Tive que crescer, casar, morar longe, tive que enfrentar meus próprios “agostos por dentro”, algo assim como “uma tristeza que nada nem ninguém conserta”. Tudo isso e um bocadinho mais para poder apreciar e reverenciar também _anos-luz depois de formada_ a genialidade de Caio.

Certos livros e autores, assim como as melhores coisas da vida, também vêm a seu tempo. E descobri-los pode ser uma aventura literária das mais lindas, das mais reveladoras. Pode ser uma “pequena epifania”, daquelas “miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias encravadas no dia-a-dia”. É assim: você está lendo um poema, um romance, ou quem sabe uma crônica no jornal e, de repente, você se depara com uma verdade. Mas não é uma verdade qualquer e, sobretudo, não é para qualquer um. É a sua verdade. Algo que toca o mais íntimo do seu ser. Algo que toca profundamente a realidade da sua vida.

A literatura de Caio é um alento, um contentamento, porque dá uma vontade louca de se querer simplesmente: viver. E ser feliz. E num mundo tão freneticamente embrutecido, ser doce. Tanto quanto a doçura de suas palavras: “Lembranças passam pela cabeça sem se deter. São humildes, parecem esperar um aceno para caírem sobre mim. Quase nunca faço esse aceno; elas desaparecem, deixando um gosto e um cheiro muito leves de poeira, armário aberto depois de muito tempo, lençol limpo, café preto com broa de milho. Gosto de tempo, elas deixam.” Caio dá vontade de suspender o tempo, de fazer o mundo girar com menos pressa e mais contemplação. Dá vontade de se encher de ternura com a beleza que ele faz emergir das palavras. E do cotidiano. Porque afinal de contas, “O segredo do belo está aqui, ó. […] Na sua cuca, no seu olho que realmente vê, dentro de você. Se você souber olhar as coisas dum jeito mágico, tudo fica mais bonito.”

Mas não se engane. Ninguém lê Caio impunemente. Porque Caio questiona (“Quanta ilusão. Um dia o circo pega fogo, a morte chega e de que serviu essa alegria toda?”), instiga (“Para onde vão os filmes, dentro da gente, depois que você sai do cinema?”) , constata (“A vida é apenas uma ponte entre dois nadas e tenho pressa”), provoca (“Tão arrogantes: quem tem, afinal, o poder de salvar o outro de seus próprios abismos?”), espera (“Quero mais, quero o que ainda não veio”), deseja (”“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce”), aconselha (“Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar”), compreende (“A gente nunca pode julgar o que acontece dentro dos outros”). Não se lê Caio sem se doer um pouco. Ou muito. É que buscar a verdade dói e, por vezes, dói ainda mais encontrá-la. E na obra de Caio se encontram muitas verdades. Verdades mundanas. Verdades existenciais. Verdades e incertezas. Verdades e esperança. Sim, porque também não se lê Caio sem se ter esperança: “Que é da natureza da dor parar de doer, tenho aprendido.”

Caio nos faz perder o medo (ele que tinha tanto medo) de tudo o que é humano e, que justamente por ser humano, pode ser assustador. É preciso ler seus contos, suas novelas, suas crônicas, suas cartas, para perceber que Caio sempre é profundo, mesmo quando parece_ só parece_ superficial. Caio nos incita a perceber sutilezas_ ““Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno”_ , a confiar na vida _ “Naturalmente a saia é justa, mas como a fé é larga, fica tudo equilibrado”_,  a recusar desesperar _“Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar”.

Das infinitas possibilidades que a vida nos dá, ler é uma das mais acessíveis, e talvez por isso_ como tudo aquilo que está demasiadamente à nossa mão_ tantas vezes a negligenciamos. Soubéssemos do bem que nos faz, leríamos com o mesmo cuidado de quem toma um remédio para viver melhor.

Das inúmeras possibilidades de ler o mundo, ler Caio é uma das mais perturbadoras, vertiginosas e  gratificantes. Ler Caio é perceber-se mais gente, mais humano, mais vivo. Ler Caio é antecipar uma saudade.  “Saudade do que nunca vi, de quem ainda não amei: os caminhos são muitos e nós estamos vivos”.

Saudade de ter te lido antes, Caio. Saudade de te ler pra sempre. E, mais que tudo, vontade enorme de “ser feliz agora, já, imediatamente.”

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4 comentários em “Mosaico textual para Caio

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