Da carta ao blog: lições da escrita

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Da carta ao blog: lições da escrita
Cris M. Zanferrari

“Se és feliz, escreve;
se és infeliz, escreve também.”
Machado de Assis

Faz poucos dias, concluí a leitura de um livro de cartas. Sim, sei que é no mínimo curioso que alguém se interesse por ler uma carta que não lhe foi endereçada. Por isso, explico: trata-se de cartas redigidas pelo ilustre escritor Mário de Andrade e destinadas a outro dos grandes: Carlos Drummond de Andrade. E o interesse vem do fato de que sempre há o que aprender com os grandes. Ou simplesmente, com os outros.

A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade” me fez pensar, uma vez mais, na razão pela qual alguém escreve. Já li muitos artigos, já assisti a inúmeras entrevistas, já vi muitos escritores justificarem, cada qual à sua maneira, o que os leva a escrever. São motivos os mais diversos, os mais criativos, os mais existenciais possíveis. Longe está de se encontrar uma unanimidade nos depoimentos. Mas a franqueza de Mário ao amigo Drummond acende uma luz. Diz ele: “Estou criança e só o carinho me dá prazer e sossego. As minhas cartas são todas nesse sentido, pedidos de carinho.” Daí que quem escreve, escreve para satisfazer uma carência.

Mas não vá logo o leitor se apiedando do ser carente que escreve, porque por trás dessa carência há também uma presunçosa vaidade, que consiste em pensar que o que se escreve pode ter alguma serventia para quem lê. Ou seja, o texto escrito pode bem preencher as carências alheias. É o próprio Mário quem o diz: “[…] ter coragem das suas próprias besteiras me parece neste caso muito útil pros outros.” E, sim, escrever exige sempre uma certa coragem, porque sempre há o risco de o texto fugir ao sentido original, àquele que se pretendeu no momento mesmo da escrita, e aí então é como parir um filho que não saiu aos seus.

Ok, talvez eu esteja exagerando, mas o que quero dizer é que sempre que alguém escreve _ e estão aí incluídos os mais diversos tipos de texto: cartas, livros, teses, jornais, revistas, anúncios, blogs e um universo mais_ é para chamar a sua atenção. É para estabelecer alguma forma, qualquer que seja, de contato, de comunicação. De ponte. Só alcançamos o outro quando nos dirigimos a ele e ele nos devolve __ o seu olhar, a sua escuta atenta, o seu precioso tempo. Quem escreve é como quem fala: lança palavras para que elas ecoem. Sem eco e sem resposta, somos crianças buscando um carinho. Somos todos carentes.
Mário escrevia cartas pela mesma razão que escreve um qualquer escritor, jornalista ou blogueiro. Mário escrevia cartas para se sentir vivo, mas sobretudo para se sentir gente. É que o ser humano só se reconhece como verdadeiramente humano quando se relaciona com os outros. Até mesmo, e muito, por escrito. Quem escreve, escreve para se aproximar, para aplacar a sua, a nossa tão humana solidão. Escrevemos para estarmos mais próximos uns dos outros. E de nós mesmos.

Sim, porque o autor de Macunaíma também faz ver que escrever é, fundamentalmente, um exercício de autoconhecimento. Pensamos estar escrevendo para o outro quando, na verdade, escrevemos para nós mesmos. Deve ser por isso que é tão terapêutico (e recomendável) manter um diário. Quem assistiu a Escritores da Liberdade, filme baseado em uma história real, deve lembrar o quanto foi transformador e catártico, para aquela turma de alunos marginalizados, o uso da escrita como reescrita da própria história. Escrever nos reorganiza, nos confronta, nos liberta. É Mário, ainda outra vez, quem diz: “[…] estes raciocínios são mais pra mim que pra você mesmo. […] a maioria das cartas que escrevo são pra mim mesmo. É que desde muito ando completamente desguaritado de mim mesmo e carecendo me reachar.”

Nem todos seremos escritores, missivistas, jornalistas ou blogueiros. E só muito poucos serão grandes. Ainda assim é fato que sempre há o que aprender uns com os outros. Sempre há o que revelar-se a si. Por isso se escreve. Por isso se lê. E por isso se aprende: tudo na vida é lição.


Texto publicado em primeira mão em: http://www.consueloblog.com

 

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Ver e Ouvir Música Clássica (ou: pretexto para divulgar a OSINCA)

Deve ser um sinal dos tempos: ando com desejos de ouvir mais música clássica. Deve ser porque me dou conta de que ouvir Mozart, Vivaldi ou Bach, é muito parecido com ler boa literatura: são momentos de suspensão do mundo. Tudo o que há ao redor fica momentaneamente suspenso, parado, como a esperar. Tudo pode esperar.

A música clássica apela para todos os sentidos. Por isso, deve-se ouvi-la como quem lê: em atitude de doce entrega. Tal qual o poema ou o livro, a música penetra-nos a alma, desperta insuspeitados sentimentos, revela-nos surpreendentes sensações. Entregar-se à audição de uma sinfonia é converter o momento em um átimo de religiosidade, de uma quase epifania. Tudo o mais pode esperar.

Deve ser, sim, um sinal de muitas primaveras esse que me faz apreciar cada vez mais os clássicos, da música à literatura. Deve ser porque com o passar do tempo refinam-se os gostos, apuram-se as escolhas, burilam-se os hábitos, aprofundam-se as sensações, aperfeiçoam-se os sentimentos. Salvo raras exceções, não é na juventude que se ouve Beethoven ou se lê Machado de Assis com genuíno interesse e legítimo apreço. Há que se viver, sofrer, conhecer, aprender, “rasgar-se e remendar-se” primeiro. É preciso enlouquecer um pouco, danar-se com o mundo, quase desesperar para se chegar a desejar, enfim, a harmonia.

Deve ser daí que vem o consolo, o conforto, o alento que nos chega através da música clássica. Uma sinfonia é, essencialmente, uma harmonia de sons. Sendo harmonia, os acordes sinfônicos nos harmonizam também. Harmonizar quer dizer estar de acordo, que é o que acontece à medida que envelhecemos. Mestre Rosa sabia das harmonias e preconizava: “Envelhecer devia de ser bom __ a gente ganhando maior acordo consigo mesmo.”

Que seja, pois, um sinal dos tempos, um sinal da idade, um sinal qualquer esse que me faz ouvir Strauss, que me faz ler Dostoiévski, que me faz sentir bem, muito bem. E se faz sentir bem, deve ser um bom sinal.

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Todo esse preâmbulo vem a pretexto de falar do meu orgulho em viver numa pequena cidade que tem, por obra e esforço de um jovem e sua comunidade, uma orquestra sinfônica. Trata-se da OSINCA (Orquestra Sinfônica de Carazinho), regida, apaixonadamente, pelo prodígio que é Fernando Cordella. Venha, querido leitor, ver e ouvir a “nossa” bela e formosa OSINCA.

 

 

 

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Amiga lição

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Numa época em que não existiam redes sociais, e-mail e que tais, eu usava escrever cartas. Mais que isso, eu adorava escrever cartas. É que sempre gostei mais de falar por escrito, de falar escrevendo mesmo. Escrevendo, falei com amigos, parentes e até desconhecidos. Sim, fiz amizades por pen-pal, uma espécie de chat por correspondência. Levava semanas e até meses, claro, para receber uma resposta, principalmente quando vinda do exterior. Mas era uma bonita espera.

Escrever uma carta é um pouco como desnudar-se. Numa carta, desvelam-se pensamentos os mais secretos, sentimentos os mais inconfessáveis, nacos de vida os mais intangíveis. Por isso, também é um pouco vouyer aquele que aprecia ler cartas alheias. A leitura das cartas dos outros é a observação curiosa e expectante sobre uma intimidade que, em verdade, não lhe diz respeito, mas que de alguma maneira o fascina. O leitor do gênero epistolar é antes de tudo um curioso, alguém que pensa ser capaz de apreender mais, de conhecer mais intimamente os interlocutores por meio desses diálogos escritos. E conhecer mais, para esse leitor, quer dizer assimilar aprendizagens, de vida e literatura, por meio da conversa escrita que é uma carta.

Sou assumidamente um desses leitores. Amo ler e reler as correspondências trocadas entre Clarice Lispector e suas irmãs, entre Clarice e Fernando Sabino, entre Pessoa e sua Ophélia, entre Rilke e seus contemporâneos, entre Caio Fernando e o seu rol de amigos, entre Tchékov e os seus, entre Mário de Andrade e Drummond. Dos dois últimos, leio “A lição do amigo” com um contentamento quase religioso.

Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade cultivaram uma amizade missivista por vinte anos. Isso mesmo. Durante vinte anos, o autor de Macunaíma e o poeta de Itabira foram amigos íntimos, trocaram conselhos literários, experiências de vida, conversaram fraternalmente, debateram assuntos linguísticos, fizeram confidências. Conviveram mesmo, literalmente, foi por escrito. É o próprio Drummond quem trata de esclarecer logo na apresentação do livro: “A bem dizer, e paradoxalmente, jamais convivi com Mário de Andrade a não ser por meio das cartas que nos escrevíamos […].” Paradoxal e intransponível, mas ainda assim: uma convivência. Poderia se dizer até mesmo: uma rica convivência. De uma riqueza que vem, nas palavras de Mário, do fato de “compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela.” Vivê-la, inclusive, por escrito.

Em uma nota de Antônio Cândido, lê-se que Mário de Andrade encarava a tarefa de escrever cartas como uma responsabilidade moral e literária tão grande quanto escrever poemas ou estudos. Diz Cândido que Mário via nas cartas “um instrumento de revelar beleza e servir ao próximo.” Mas talvez fosse ainda mais do que isso. Para o poeta de “Lira Paulistana” (seu último livro), redigir longas missivas era um gesto existencial. É ele mesmo quem o diz: “Escrevo mesmo só pra lembrar você de que existo.” Lembrando ao outro da sua existência, lembrava-se a si mesmo. E existia, largamente, pelas cartas. A verdade é que quem escreve quer estar perto, quer estar junto: “[…] escrevo por precisão de me sentir mais junto com os amigos.”

Mário de Andrade prezava por demais o valor da amizade. E se era certo que havia o desejo de transpor e de estender as relações amistosas do papel à vida real, era certo também que esse desejo se revestia de ofertas generosas, como esta feita através de um convite a Drummond para que fosse a São Paulo e fizesse um ‘retiro espiritual’. Assim dispôs Mário ao amigo: “Venha pois tentar dois meses sozinho. Talvez que uma intimidade mais objetiva com minha felicidade possa organizar você. Hei de achar jeito pra conversarmos bastante. Você aqui não está sozinho. Você entra e sai na minha casa a hora que quer. Se eu estiver trabalhando não deixo o trabalho por causa de você. Você fica mexendo no que quiser. Se quiser dormir durma. Se quiser ir à merda, eu não deixo. Se vier com confiança ou cerimônias, te dou um bruto dum soco e dois insultos de inhapa. E tenho um coração de ouro, com muita paciência e todos os perdões pra você.” Mário ofertava ao seu destinatário muito mais do que palavras. Ofertava sua casa, seu tempo, sua compreensão. E ofertava, sobretudo, uma amizade duradoura: “Que passem anos, se um dia um de nós sofrer e encontrar ou buscar o outro, sabe que nesse ombro terá descanso.”

Repletas de sabedoria, de experiência de vida, de literatura e de conselhos, as cartas de Mário seduzem e apaixonam o leitor por seu alto teor lírico e por sua finíssima carga poética. “A lição do amigo” é mesmo repleta de lições, e é também uma prova irrefutável de que ler a correspondência alheia pode ser útil, proveitoso, e nem um pouco indecoroso, principalmente quando o próprio remetente consente em que sejam publicadas: “Está claro que isso é o que mais me absolve de minhas cartas. Foram escritas com tamanho amor, tamanha integração, tão decisórias como esses momentos raros de que a gente ‘nunca se esquece na vida.’”

Esteja em paz, Mário. Mais do que absolvição, as tuas cartas te elevam àquela categoria de texto do qual se diz, num perfeito estado de sublimação: é literatura que ajuda a viver. Muito obrigada pela amiga lição.

 

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Mood Board

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“e todos os dias
trazer à tona meu melhor rosto
[…]
e todos os dias
depurar o melhor de mim
[…]
e todos os dias
não deixar a sede vencer a garganta
não deixar o gesto se estender do braço
e não gritar, não gritar nem chorar,
nem utilizar palavras ásperas
(dance, dance, dance
e não se esqueça de sorrir)
[…]”

Caio Fernando Abreu

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A primavera olímpica

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Poema “Saudade”, de Arnaldo Antunes, apresentado na cerimônia de encerramento das Olímpiadas 2016, no Rio de Janeiro

Política e políticas (assim mesmo, no plural) à parte, os jogos olímpicos no Rio causaram comoção. A gente quase tinha esquecido desse sentimento tão bonito que é ser brasileiro, que é ter uma alma aguerrida, que é arrepiar-se ao som do hino nacional.

A gente quase não acreditava que esse país de tantas mazelas, de tanta desordem e corrupção, tivesse ainda tanta alegria pra dar.

A gente quase agourava, prevendo vexames e humilhações de toda espécie. A gente quase se envergonhava de ter reivindicado sediar um evento desse porte.

A gente quase esperava que tudo fracassasse, que fosse um fiasco, que fosse (mais uma) vergonha a ser estampada na mídia internacional.

E então, quando a gente sequer pagava pra ver, a gente viu.

A gente viu uma abertura que fez bonito. A gente viu atletas dando o melhor de si. A gente viu atletas subindo ao pódio. A gente viu seleções virando o jogo. A gente viu capacidade, talento e garra. A gente viu empenho, vontade e determinação. A gente viu um encerramento com frevo, forró, e poesia. A gente viu um país viver momentos de alegria e de uma _ainda que tênue_ inegável esperança.

E então, em pleno mês de agosto, com muito vento, chuva e frio, a gente se reconheceu e se refez verde e amarelo. Em pleno e corrente inverno, a gente assimilou que “toda glória é primavera.” Então e enfim, que conste dos registros históricos que também nós, brasileiros, tivemos nossa primavera olímpica.

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Dia Feliz

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Dia feliz
Cris M. Zanferrari
Cada vez mais me convenço: palavras são entes vivos. Vivem entre nós como se fossem gente, e tanto é verdade que a algumas nos afeiçoamos ternamente, por outras caímos de amores, algumas nos dão medo, outras causam repulsa, e umas tantas há que nos despertam raiva, rancor e até mesmo ódio. Assim como todas as gentes, há palavras para todos os gostos: bonitas, feias, gordas (são encorpadas de sentido), magras (são insuficientes para expressar), gostosas, asquerosas, grandiloquentes, reservadas, e por aí vai. A população das palavras é tão diversa quanto à das gentes e, por isso, jamais chegaremos a conhecê-las todas, o que sequer seria desejável.

Pois bem. Nesse universo que é a linguagem e todas as suas possibilidades, sempre achei que há uma palavra por demais injustiçada. É uma palavra que para a maioria das pessoas se traduz em monotonia, chatice, enfado, mesmice, tédio, e sabe-se lá mais o quê. A maioria das pessoas foge ou quer fugir dela por puro receio de se sentir aprisionado, de sentir como se a vida, feliz e proveitosa, só pudesse acontecer bem longe dela. Sempre mal vista, insultada e caçoada, a pobrezinha da palavra não tem culpa alguma além de expressar o que é mais inerente ao ser humano: o desejo de repetição. Sim, estou falando da rotina.

A rotina é a realização mais cotidiana, mais comezinha, de nosso humano desejo de (nos) repetir. Ela nos dá uma certa segurança e uma relativa tranquilidade, o que não é pouco para os dias de hoje. Saber o que se vai fazer, como se vai fazer, com quem se vai estar, onde se vai terminar o dia, ou seja, saber que “todo dia vai ser tudo igual” pode ser, ao contrário do que se supõe, libertador. É uma imensa liberdade não precisar decidir todo dia de novo as mínimas coisas, os ínfimos afazeres. Conhecer a cartilha do ABC diário é não ter que precisar todo novo dia reaprender a ler. É ou não é uma bênção?

Aliás, a gente só percebe a rotina como algo sagrado quando ela nos falta. Quem, enfermo num leito de hospital, não preferiu trocar a doença pelo mais chato dia de trabalho? Quem, diante de uma tragédia pessoal, não desejou regressar ao mais “comum e normal” de seus dias? Quem, em circunstâncias as mais adversas, não ansiou pela paz e pelo sossego dos dias (quase) todos iguais? E não é preciso pensar só nas mazelas para sentir falta da famigerada rotina. Viaje pra ver. De preferência, para o exterior. E por mais de quinze dias. Passadas a empolgação com as novas paisagens e a avidez por provar os pratos típicos, você já estará se chateando por dormir numa cama que não é a sua, por ter de entender e fazer-se entender numa língua que também não é a sua, por sentir falta do tempero da sua comidinha básica. Num mundo cada vez mais “personal”, já parou pra pensar que a rotina é a coisa mais pessoal que a gente pode ter? Todo mundo tem, ou deveria ter, uma rotina pra chamar de sua. Porque tudo nela, na verdade, é seu: seus hábitos, seus costumes, suas manias, seu jeito de ser e de fazer as coisas todas.

Pensando bem, talvez seja por causa desse sentimento de pertencimento (minha rotina me pertence), quase maternal, que rotina sempre me pareceu uma palavra tão feminina. Inspira cuidados e até _ por que não?_ uma certa devoção. A verdade é que nem sempre lhe dão o devido valor. Fosse eu publicitária, lançaria uma campanha para promover a saúde e o bem-estar através da valorização da rotina. Seria clara e objetiva, como todo imperativo na vida: “Rotina: conquiste a sua!”, “Rotina: ame a sua!”

E por falar em amor, creio que não pode haver indicador mais legítimo de uma vida bem aproveitada do que amar a própria rotina. É claro que as exceções são sempre bem-vindas, porque pelo bem ou pelo mal nos ajudam a recompor a forma como vemos o mundo. Mas a vida acontece mesmo é no dia a dia, na constância de tudo que segue seu próprio ritmo, nesse equilíbrio estável que é poder (se) repetir. Por isso, gosto quando meu dia termina com a mesma constatação do personagem de Benedetti ao fazer um balanço das suas vinte e quatro horas: “Hoje foi um dia feliz; só rotina.”

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O escritor, o mentor, o aspirante

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Moro numa casa onde nunca param de chegar livros novos. Mas não, não é uma casa editorial. É apenas uma casa onde se lê muito. Muito mesmo. Por isso, as encomendas por aqui chegam dia sim, dia também. E bem, nem sempre são novos, algumas vezes são exemplares já esgotados e só encontráveis em sebos. Mas, velhos ou novos, só quem ama muito receber livros pelo correio sabe da alegria que é quando chega o carteiro: a verdadeira happy hour.

Dentre as próximas entregas, há uma especialmente aguardada: o box com três livros de textos inéditos do mestre da crônica no Brasil, o magistral Rubem Braga. Toda essa introdução sobre livros que chegam, portanto, nada mais é senão um pretexto para dizer que todo aquele que escreve, escreve inspirado por suas leituras favoritas. Todo aquele que escreve tem um mentor.

Mentor de aspirante a escritor é, obviamente, um caso à parte se considerarmos a definição dicionarizada para o termo: “pessoa que atua como conselheiro intelectual.” Trata-se de um caso à parte porque, como se vê, um escritor-mentor não precisa _ ou, por razões metafísicas,_ não pode estar fisicamente presente. O escritor, para ser considerado mentor, só precisa ser lido e relido com verdadeira obstinação. E com a mais absoluta devoção.

Rubem Braga é meu mentor. Elegi-o desde o primeiro texto lido. Enterneceu-me que alguém pudesse descrever com tanta graça e sensibilidade o nascimento de um pé de milho. Ou melhor, de descrever o sentimento de ver brotar, crescer e pendoar, no seu “exíguo canteiro”, um “pé de milho sozinho”. “Um pé de milho” foi, pois, o meu primeiro e inesquecível Braga. Depois dele, todos os cronistas me parecem apenas esforçados aspirantes.

É que nesse aspecto, sou categórica: para ser grande é preciso ser inigualável. Por isso, há tão poucos grandes. E eles jamais serão igualáveis entre si. Um grande é um grande e ponto. A sua grandeza reside em ser único, ímpar, absoluto. E só.

Mas se assim é, de que nos serve aspirar ou ter um mentor? Ora, há que se pensar que até mesmo os grandes tiveram lá as suas aspirações. Sem aspiração não há ação, sem ação não há resultados. Serve para qualquer coisa na vida. Até para escrever.

Sendo assim, aspiremos. E que nossas aspirações nos sirvam, se não para sermos também grandes, ao menos para perseverarmos em nossos esforços e contínuos aprendizados. Afinal, como bem nos alenta e nos incentiva outro dos grandes, “talvez seja melhor assim: não ter alcançado o pináculo então, é uma boa razão para continuar subindo. Como um dever que nasce de dentro e porque o sol ainda vai alto.”*

*José Saramago, em excerto colhido na crônica “A minha subida ao Evereste”, em “A bagagem do viajante.”

 

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