Citação · Viagem

De (vi)ver e escrever

 

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Minha alma, contente, está em preparativos de viagem. E quando falo em ‘preparativos’ não me refiro a nenhuma check-list para a mala nem a qualquer outra coisa de ordem prática. Falo de uma preparação do estado de espírito, de uma disposição interior para antecipar o contentamento pelo que se vai ver e viver, de uma silenciosa expectativa pelas emoções e sentimentos que, inexoravelmente, os lugares hão de despertar. Sim, há muito que sei, assim é que é: toda viagem começa e termina sempre em nós mesmos.

E porque tudo depende unicamente de nós, e porque a cada ano desconfio mais e mais dos olhos da memória _ já reparou o leitor que as lembranças se sobrepõem umas às outras e os olhos com os quais lembramos em muito diferem dos olhos que viram e viveram? _, decidi escrever. Vou prender as imagens, as impressões, as vivências às palavras. Amarrá-las o mais breve possível ao instante vivido. Concentrá-las num Moleskine à moda de um escritor antigo. Corro riscos, bem sei. Do maior deles advertiu-me Guimarães, em “Ave, Palavra”: “Redigir honesto um diário seria como deixar de chupar no quente cigarro, a fim de poder recolher-lhe inteira a cinza.”

Ok, talvez os registros não sejam feitos no imediato do instante, talvez eu trague o cigarro antes mesmo de encontrar a caneta na bolsa, talvez o mundo dê tantas voltas que eu acabe descendo. Talvez. Quem pode predizer o minuto seguinte? A vida também é papel em branco a receber às vezes um borrão, às vezes um poema.

Ainda assim, me proponho a fazer alguns registros. Andarei por lugares já vistos, pelas mesmas cidades e suas ruas, mas serão outras mesmo sendo as mesmas. Serão outras como outros já são os olhos que as veem. É fato: por onde quer que andemos, levaremos nossas retinas impregnadas de mundo, leitura e memória. Ver nunca é ver pela primeira vez. Erico Verissimo já bem o sabia quando se perguntou: “Quando nos será possível olhar o mundo com olhos sem memória, puros e naturais?”

Pois vou-me assim mesmo. Com olhos excessivamente lidos, cheios de literatura e poesia; com olhos satisfatoriamente viajados, cheios de paisagens urbanas e humanas; com olhos de ver não a cara, mas o coração. Vou-me, pois, com olhos que ainda se espantam diante da dor e do amor. Com olhos que reverenciam a graça de ver e que acham graça no movimento irrequieto dos aeroportos e estações. E porque “nunca desembarcamos de nós mesmos”, vou-me, pois, com os olhos meus.

Na bagagem de volta, hei de trazer os olhos mais gastos _ se Deus quiser, prazerosamente bem gastos. Tão gastos quanto as folhas de papel escritas, rasuradas, anotadas, compondo, quem sabe, um diário; quem sabe, uma fabulação.

Na de ida, levo pouco mais que a boa e sincera intenção da escrita; levo a certeza de que também escrever é um grande e profundo aprendizado, como bem constatou mestre Rosa: “Pôr tudo num diário é meio salutar de nos envergonharmos de nós mesmos para aperfeiçoamento.” Assim é que me vou. Au revoir.


 

 

 

Citação · Literatura · Livros

Pretexto para falar de amor

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PRETEXTO PARA FALAR DE AMOR
Cris M. Zanferrari

O dia dos namorados já passou, mas continua sendo junho, o mês do amor. Ao menos assim se convencionou. E convenções, ao contrário do amor, são pré-estabelecidas, anunciadas, sacramentadas. Amor que é amor foge a todas as regras, bule com a previsibilidade, não se submete a códigos sociais. Amor que é amor não carece de definição, não se explica e a verdade é que nem pode muito o amor. Aliás, pode muito pouco o amor.
Amor não passa de sentimento, e sentimentos não curam doenças incuráveis, não impedem atropelamentos, não protegem contra a violência social, não saciam a fome, não cessam as guerras, não são o bastante para mudar o curso de um rio. Amor_ esse sentimento_ é inapto a tomar para si a dor alheia. Por mais que se ame, o amor é impotente para a cura.
Que pouco ou nada pode o amor foi coisa que li em livro. Coisa dura, áspera, de difícil digestão. Mas compreensível e aceitável. Diz o personagem, velho pai acamado, diante da impossibilidade de amparar e cuidar de suas filhas: “Que pode o meu amor fazer por elas? O amor não tem instrumentos. Tem os instrumentos do prazer. Nada mais. É um evento em si mesmo. Às vezes pode-se fazer correrem, para os seres a quem se ama, os rios da alegria e da fartura. Mas é por acaso. Seu amor, no fundo, não é responsável por isso.” O amor, sendo só sentimento, não dispõe de instrumental para nada além de amar.
Mas ouso dizer que se o amor pode pouco, amar pode mais. Porque amar faz bem _ sobretudo_ a quem ama. Amar é o que dá sentido à vida, muito mais do que ser amado. Pessoas são amadas e nem por isso abandonam as drogas. Pessoas são amadas e ainda assim cometem suicídio. Pessoas são amadas e nem sempre amam a quem as ama. Ser amado é bom, é importantíssimo, mas não é o suficiente. Amar é que é vital. É que as pessoas só mudam a si e ao mundo quando elas mesmas descobrem, decidem ou aprendem o que é amar. Amar o que quer que seja: uma pessoa, um bicho, uma causa, um estilo de vida, uma doutrina religiosa, a natureza. É que amar, e só amar, plenifica, dignifica, justifica a nossa existência. É quando amamos _ não quando somos amados_ que encontramos a nossa razão de ser. É, pois, só na passagem de objeto a sujeito do amor que nos salvamos.
E não, não estou dizendo que amar e ser amado, amar e ser correspondido, não seja a graça das graças, o final feliz que tanto perseguimos e ambicionamos. Mas falar disso seria quase que falar exclusivamente do amor romântico, o que seria, por fim, limitar o amor. E quando se fala em amor, nada há que se limitar.
Enfim, voltamos ao calendário, e ainda é junho, é ainda o mês do amor. E convenções à parte, a verdade é que sempre é tempo para se falar das coisas do coração, porque este sim [o coração] é que é “o relógio da vida”, e afinal, “quem o não consulta, anda naturalmente fora do tempo.”

 

 

Citação · Companhia das Letras · Literatura · Livros · Resenha

“Avalovara”: itinerário de espinho e flor

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Quem já leu “O som e a fúria”, de William Faulkner, sabe o que é ter a sua capacidade leitora posta à prova. Não é diferente com “Avalovara”, de Osman Lins. Aliás, talvez seja. A diferença, nesse caso, é para um grau de dificuldade que foge a qualquer comparação. É muito provável que a sua competência de leitor se desfaça às primeiras páginas tanto quanto é possível que jamais se restabeleça até chegar às últimas. Isso no caso de chegar.

Exageros à parte, não me surpreenderia com leitores que abandonassem o livro por total falta de aptidão ou disposição para compreendê-lo. É preciso, sim, esforçar-se. É que “Avalovara” rompe com todos os padrões literários tais como os conhecemos. É um romance (?) que mais se parece com uma obra arquitetônica, cuja construção se dá bem diante dos olhos do leitor, como se fosse “em se fazendo”, se esquadrinhando em ‘tempo real’, conforme nos prepara (adverte?) o próprio narrador: “Pouco sabe do invento o inventor, antes de o desvendar com o seu trabalho.”

E o que se vê acontecer é uma obra de linguagem mais do que de narrativa, na qual se entretecem sentidos a uma profusão exponencial. Tudo é símbolo, simbologia, tudo se insere num universo delimitado por uma espiral e o quadrado que a contém (?), tudo se move e se orienta por um palíndromo cujas letras correspondem cada uma a um quadrado menor constituindo o quadrado. Enfim, em “Avalovara”, tudo é enigma, tudo é jogo. É preciso estar disposto a jogar.

Uma vez aceito o mirabolante esquema de leitura projetado pelo autor, é impossível abandoná-lo. Há qualquer coisa que nos seduz; uma coisa qualquer que se, por um lado, nos desencoraja a prosseguir, por outro lado nos incita, nos impele a seguir adiante. E não é em si o desejo de conhecer o que vai suceder entre Abel e suas três mulheres que nos faz prolongar a leitura. É antes o desejo de se manter no jogo, de se manter jogando, de se sentir enredado nessa aventura alucinante que é desvendar um texto e seu mundo. Que é, na verdade, desvendar a si mesmo.

Mas é preciso dizer: atravessei “Avalovara” com grande dificuldade e uma intermitente frustração. Sim, intermitente, porque momentos há em que se tem (ou se pensar ter) o texto sob controle: a narrativa é compreensível, inteligível, assimilável. E então, a contrapartida: momentos em que o texto se faz caótico, incompreensível, indecifrável. Talvez fosse esse mesmo o propósito de Osman com sua obra: deixar-nos perplexos. Tal qual o personagem Julius almeja com os sistemas de som de seu relógio: “colocar as pessoas […] na mesma atitude de perplexidade que se sofre perante o Universo.”

Por isso, de “Avalovara” pode-se dizer muitas coisas, só o que não se pode dizer é que o livro nos seja indiferente. É impossível não se deixar tocar pelas deliberações ao longo do texto (“Fio conduzido pela agulha são as vidas? Tua vida é agulha a costurar sem fio?”; “Colhe-se realmente entre canções quando em pranto jogamos as sementes?”; “Ama-se o que em quem se ama? O que, em quem amamos, faz com que o amor se manifeste?”). E são tantas, belas e surpreendentes as deliberações! De “Avalovara” pode-se dizer inclusive que é um metalivro a falar, através de uma metalinguagem, sobre o que é o livro, o que é o amor, o que é a vida.

Sim, pode-se dizer muitas coisas mais de “Avalovara”. Dizer, por exemplo, que das agruras do texto brotam espinhos e flor, sendo a flor um puro instante de poesia que se faz sentir na lavratura da palavra (como no trecho, de uma delicada beleza, em que o narrador nomeia “as horas” de “o hálito do tempo”). Por essa poesia que às vezes irrompe__ e ainda que somente por ela__ já o livro se justificaria.

E se falo em justificativa é porque precisei justificar-me por essa leitura. Em certa passagem do livro, diz Abel, o escritor-protagonista, que “ver é encargo tortuoso.” Pois bem. Digo eu, ao final dessa experiência, num exercício de absoluta honestidade para comigo __ e por que não dizer, para com você que me lê__ que, considerada a complexidade da obra, ler “Avalovara” também foi, em certo grau e medida, um tortuoso encargo.

A arquitetura da felicidade · Citação · Consueloblog · Livros · Moda · Mundo fashion

Pra não dizer que não falei de moda

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Pra não dizer que não falei de moda

Cris M. Zanferrari

Era inevitável. Mais dia, menos dia, o assunto teria de vir à pauta. Como assim nunca ter falado de moda num blog sobre moda, tendências e comportamento? Por outro lado, como me atrever a falar de moda num blog sobre moda, tendências e comportamento? Logo eu, que já cheguei a pensar que moda é ocupação de quem não tem com o que se ocupar? Falar de moda, eu?

Preconceitos abandonados ao final da adolescência, ouso sim falar de moda. É que falar de moda hoje é quase tão natural como falar da previsão do tempo. Claro, há quem o faça com conhecimento e autoridade, mas falo do mesmo lugar de onde fala a vizinha de apartamento, a estudante de biologia, a profissional liberal: falo do lugar de quem a consome. E que ninguém se engane pensando que não se deixa levar por esse bem de consumo. A menos que você viva numa comunidade alternativa, não há quem resista a uma bela vitrine ou a folhear uma revista sem reparar nos anúncios de jeans e afins. A moda nos entra pela vida como um combustível a injetar sonhos e aspirações. Ou, simplesmente: a moda é a projeção de nossos desejos.

Quando, dez anos atrás, li “A arquitetura da felicidade”, do filósofo Alain de Botton, lembro de ter ficado supresa diante da revelação de que uma casa, mais do que expressar quem somos, expressa como, na verdade, gostaríamos de ser. Uma casa excessivamente organizada, por exemplo, não implica que seu morador seja um sujeito calmo e centrado. Ao contrário, a ordem e o alinhamento de móveis e decoração representariam o desejo de o morador aquietar e acalmar uma mente agitada e até turbulenta. O filósofo suíço parte, portanto, do princípio de que nos cercamos de formas materiais que nos proveem com aquilo de que necessitamos interiormente.

Tenho pensado que se isso vale para a arquitetura pode bem valer também para a moda. Sempre se disse que a moda é um meio de expressão, que a moda comunica, que o modo como nos vestimos diz muito sobre nós. Pois bem. Talvez diga ainda mais sobre quem ou como gostaríamos de ser. Talvez por isso é que quem deseja parecer autoconfiante sobe no salto. Quem deseja transmitir seriedade e competência, usa peças clássicas e elegantes. Ok, nada disso é regra, mas a verdade é que mesmo que se queira esquecer ou negligenciar o dress code, a maneira como nos vestimos projeta _ de uma maneira ou de outra_ o modo como estamos nos sentindo ou como desejamos nos sentir. Deve ser por isso que, chegando aos cinquenta, adoro usar um jeans rasgado e uma jaqueta despojada. Não tenho dúvidas de que o poder de um item fashion preenche o desejo de juventude tanto quanto um botox.

Mais o tempo passa, mais percebo que vestir-se é um exercício de autoconhecimento. Aprende-se a valorizar certas partes do corpo e a disfarçar o que se consideram as imperfeições. Aprende-se que determinadas cores favorecem, iluminam, acendem o look e o astral. Aprende-se que um belo acessório pode compor toda a diferença no visual. Aprende-se que ler livros e blogs sobre moda pode ser útil e nos poupar de alguns micos, mas que a palavra final sobre a roupa que se veste só pode ser mesmo a nossa. Aprende-se que descobrir o próprio estilo é tarefa que pode levar anos; às vezes, a vida toda.

Aliás, pensando bem, a vida toda é muito longa para se ter um único estilo. Nada mais démodé. E, por favor, não me levem a mal, mas ter usado a expressão francesa ao final de um texto, que era pra ser sobre moda, também me pareceu inevitável.


Publicado originalmente no blog de moda e lifestyle http://www.consueloblog.com

A propósito · Citação

A parede e o verso

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Não se deve adiar nada. Nem mesmo as mínimas coisas. A vida, como se sabe, é inadiável.

Mas falo mesmo é das coisas menores. Aquelas que postergamos sem uma grave razão. Aquelas que deixamos para depois porque o depois pode tanto estar logo ali como alhures. Qualquer depois é melhor que agora. No fundo, todo mundo é um pouquinho o “deixador” de Mário Quintana, afinal “só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois.”

Cá onde moro há uma parede que, por muito tempo, esperou receber poesia. É um espaço em branco, pouco mais acima da pequena adega, que ficaria perfeitamente harmonizado e ornamentado com o verso de Pessoa: “Boa é a vida, mas melhor é o vinho.” Sempre pensei adesivar, pintar, tatuar à parede essa frase tão pertinente ao uso da casa que ali se faz. Lugar de celebrar, de confraternizar, de reunir amigos e fazer tilintar o jogo de taças até no mais banal dos brindes. Um lugar para fazer jus à frase do poeta português.

Mas aconteceu que, dentre mil e outras prioridades, a parede foi ficando para depois. Depois dos móveis todos, depois das viagens, depois do tratamento dentário, depois do carnaval, depois do depois. Agora, quase oito anos depois, há uma mudança em curso. A parede _ e o verso_ serão abandonados, deixados para trás. Terão sido sempre como um casal que, feitos um para o outro, não conheceu quem os apresentasse. O que fica para depois corre sempre o risco de ficar incompleto ou irrealizado.

Não, não se deve adiar nada. Tudo é urgente. A vida urge. A vida ruge. A vida, Quintana que me perdoe, a vida não é para depois.

 

 

 

Companhia das Letras · Literatura · Livros

Bernardo e Teresa, uma história de amor

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Não, não é pra ser uma história de amor, mas ainda assim é das mais belas histórias de amor que até hoje meus olhos já leram. É pra ser a história de um homem de espírito indomável, resiliente e fiel aos seus princípios e valores. Mas não, não seria a mesma história sem o amor que o sustenta, fortalece e apazigua. Estou falando do romance “O fiel e a pedra”, do pernambucano Osman Lins.

Cheguei ao livro desavisada desse amor. Amigos recomendaram-me a leitura, a sinopse me apresentou uma “saga quase mítica”, um “arquetípico confronto do Bem contra o Mal”, mas nada nem ninguém me preparou para a fúria poética de tão grande e obstinado amor.

Sim, a literatura universal nos presenteou com amores trágicos e inesquecíveis: Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa. A literatura brasileira nos concedeu o também trágico amor de Riobaldo e Diadorim, mas foi a literatura regional nordestina que me arrebatou com um amor a toda prova, encravado a ferro e fogo nas vidas de Bernardo e Teresa. Bernardo e Teresa são a encarnação de um amor que__ mais do que resistir aos trágicos eventos __ extrai de toda fatalidade a sua força e o seu alimento.

A perda do único filho, bem ao início do romance, dá o tom e a medida das vidas desse casal de nordestinos. Marcados por essa dor, que jamais os abandonará, buscam recomeçar a vida longe de tudo e de todos, num engenho onde Teresa será a única mulher e onde a hostilidade de “uns tipos duvidosos” crescerá à medida mesma das tensões e conflitos que os funestos acontecimentos trarão. A amparar marido e mulher, um amor crescente, a verdejar sobre a aridez dos dias e da terra.

Esse amor, esse “forte amor”, costurado à linha do tempo e da narrativa, tece seu mais nítido bordado em uma fala de Teresa, a consolar Bernardo de sua angústia por tê-la deposado sem poder lhe oferecer o conforto que ela merece. Diz Teresa: “Eu tenho muito, Bernardo: aí está você. Imagine quantos se querem neste mundo e gostariam de ter o que nós temos: o direito de estar aqui, sem conforto algum, ameaçados, mas juntos, o homem ouvindo a confissão da mulher, a mulher com um filho do homem no seu sangue. E os dois com a lembrança de um filho que morreu. Eu tenho certeza, há casais que dariam metade de sua vida por isto, pelas dores comuns que sofremos, pelo privilégio de recordar um filho morto, mas deles. Como iria eu desejar mais do que tenho? Como posso lamentar o que tem sido a minha glória?” Isso tudo diz a mulher, e diz ainda mais, porque o fio do amor que os une não se desgasta, antes se encorpa, se engrossa, se prende ao tecido da vida e não se deixa por nada no mundo romper.

Sim, bem sei que “O fiel e a pedra” é mais, muito mais que uma história de amor. É uma história sobre a existência humana, sobre seus caminhos e descaminhos, sobre a interna e eterna luta entre ficar ou partir, ceder ou resistir, matar ou morrer. É uma história quase-poema, tamanho o lirismo com que se congraça a linguagem. Mas é também, ao cabo e ao fundo, uma história de amor.

É uma história de amor para quem assim a quiser. Para quem esteja desejoso de notícias de um amor assim. De um amor bonito, sem ser idealizado, sem ser impossível. De um amor bonito, porque verossímil. De um amor bonito, porque realizado.

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Citação · Consueloblog · Literatura · Livros · Rubem Braga

Por mais lua, conhaque [ou música]

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Por mais lua, conhaque [ou música]

Cris M. Zanferrari

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido feito o diabo.”

Carlos Drummond de Andrade

Parem tudo, desliguem os celulares, cessem o monólogo interior. Eu hoje vim falar de música.

Acho que foi Nietzsche a dizer que “a vida sem música seria um erro.” Mas a verdade é que também sem arte e sem literatura, a vida seria igualmente um equívoco irremediável. É isto mesmo: sem a música, sem a arte e sem a literatura, estaríamos todos condenados.

Basta observar como o mundo anda excessivamente comovente. O que nos chega pela tela da TV ou do tablet nos assusta, nos põe em choque, nos comove. São imagens desumanas como essa do pai com os filhos gêmeos__ e sem vida__ ao colo. São cenas do terror atacando pedestres na ponte em Londres, e alguns dias depois, no calçadão em Estocolmo. Por aqui, o horror da morte de um estudante na frente de casa à volta da aula. Por aqui, as tragédias todas: a vida ceifada no trânsito, dentro dos muros escolares, diante dos filhos, diante dos pais, diante das câmeras, todas vigilantes, mas impotentes. Onde, afinal, se escondeu a paz?

Tanto excesso só pode ser anestesiante. De tanta comoção, já não nos comovemos mais. O choque diante da brutalidade humana dura o tempo da notícia, vira passado ainda que mal tenha passado. Que grande condenação é estarmos assim: dessensibilizados. Ou ao menos, pensar que assim estamos. Porque já não choramos mais diante dos horrores noticiados, acreditamos mesmo que estamos imunes, imperturbáveis, insensíveis. E então, quando menos se espera, uma música nos pega. Uma determinada música__ ouvida não importa onde, na rádio, em casa, num show __ nos desarma. E nos faz lembrar como se molham os olhos.

Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelos gêmeos ao colo do pai, pela menina morta no banheiro da escola, pela mãe que perdeu o filho. Quando uma música me faz chorar, me faz chorar pelas dores que há no mundo, por mim e por você, e__ paradoxalmente__ me faz chorar por ninguém.

É isso mesmo. Há músicas que nos fazem chorar porque sim. Porque não é preciso haver dor, tristeza ou raiva para que haja lágrima. Porque se pode, sim, chorar de um puro contentamento, de um puro transbordamento da emoção, de uma pura alegria que a música nos dá. A música desperta os nossos sentidos, e é tão sensorialmente estimulante que chega a literalmente arrepiar a pele numa espécie de, digamos, orgasmo musical. É forte o que digo porque é forte o que sinto. Por uma música assim vale a pena estar vivo.

É que a música __ tanto ou mais que a arte e a literatura__ nos põe num estado de (re)conexão com o que há de mais profundo e primevo em nós mesmos. A música alcança a nossa alma. A música __ assim como a arte e a literatura__ é a comoção que nos chega por meio da beleza. Comove porque a beleza se converte, dentro de nós, em puro e absoluto sentimento.

Rubem Braga, mestre da crônica brasileira, fazia música com as palavras, e sobre a música propriamente dita escreveu inúmeros textos. Em um deles, sobre o samba, diz assim: “A malandragem existe mais no samba que na realidade. […] Vamos, portanto, para o morro ouvir as primeiras cuícas do carnaval do ano que vem. Não precisamos levar armas. Levemos ouvidos e coração para ouvir e para sentir. Não aprenderemos música. Mas sentiremos coisas que são tristes e belas e que é bom sentir. Aprenderemos sentimento…”

Então é isso. Fazer música, tocar música, ouvir música. Musicar a vida para sentir mais e melhor. Musicar a vida para se comover e se sensibilizar. Musicar a vida para descobrir que dentro de cada um é onde a paz, finalmente, pode ser encontrada. Musicar a vida porque também a música é emoção.

Então é isso, Drummond. “Eu não devia te dizer”, mas também a música “bota a gente comovido feito o diabo.”


Este texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com