A primavera olímpica

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Poema “Saudade”, de Arnaldo Antunes, apresentado na cerimônia de encerramento das Olímpiadas 2016, no Rio de Janeiro

Política e políticas (assim mesmo, no plural) à parte, os jogos olímpicos no Rio causaram comoção. A gente quase tinha esquecido desse sentimento tão bonito que é ser brasileiro, que é ter uma alma aguerrida, que é arrepiar-se ao som do hino nacional.

A gente quase não acreditava que esse país de tantas mazelas, de tanta desordem e corrupção, tivesse ainda tanta alegria pra dar.

A gente quase agourava, prevendo vexames e humilhações de toda espécie. A gente quase se envergonhava de ter reivindicado sediar um evento desse porte.

A gente quase esperava que tudo fracassasse, que fosse um fiasco, que fosse (mais uma) vergonha a ser estampada na mídia internacional.

E então, quando a gente sequer pagava pra ver, a gente viu.

A gente viu uma abertura que fez bonito. A gente viu atletas dando o melhor de si. A gente viu atletas subindo ao pódio. A gente viu seleções virando o jogo. A gente viu capacidade, talento e garra. A gente viu empenho, vontade e determinação. A gente viu um encerramento com frevo, forró, e poesia. A gente viu um país viver momentos de alegria e de uma _ainda que tênue_ inegável esperança.

E então, em pleno mês de agosto, com muito vento, chuva e frio, a gente se reconheceu e se refez verde e amarelo. Em pleno e corrente inverno, a gente assimilou que “toda glória é primavera.” Então e enfim, que conste dos registros históricos que também nós, brasileiros, tivemos nossa primavera olímpica.

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Dia Feliz

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Dia feliz
Cris M. Zanferrari
Cada vez mais me convenço: palavras são entes vivos. Vivem entre nós como se fossem gente, e tanto é verdade que a algumas nos afeiçoamos ternamente, por outras caímos de amores, algumas nos dão medo, outras causam repulsa, e umas tantas há que nos despertam raiva, rancor e até mesmo ódio. Assim como todas as gentes, há palavras para todos os gostos: bonitas, feias, gordas (são encorpadas de sentido), magras (são insuficientes para expressar), gostosas, asquerosas, grandiloquentes, reservadas, e por aí vai. A população das palavras é tão diversa quanto à das gentes e, por isso, jamais chegaremos a conhecê-las todas, o que sequer seria desejável.

Pois bem. Nesse universo que é a linguagem e todas as suas possibilidades, sempre achei que há uma palavra por demais injustiçada. É uma palavra que para a maioria das pessoas se traduz em monotonia, chatice, enfado, mesmice, tédio, e sabe-se lá mais o quê. A maioria das pessoas foge ou quer fugir dela por puro receio de se sentir aprisionado, de sentir como se a vida, feliz e proveitosa, só pudesse acontecer bem longe dela. Sempre mal vista, insultada e caçoada, a pobrezinha da palavra não tem culpa alguma além de expressar o que é mais inerente ao ser humano: o desejo de repetição. Sim, estou falando da rotina.

A rotina é a realização mais cotidiana, mais comezinha, de nosso humano desejo de (nos) repetir. Ela nos dá uma certa segurança e uma relativa tranquilidade, o que não é pouco para os dias de hoje. Saber o que se vai fazer, como se vai fazer, com quem se vai estar, onde se vai terminar o dia, ou seja, saber que “todo dia vai ser tudo igual” pode ser, ao contrário do que se supõe, libertador. É uma imensa liberdade não precisar decidir todo dia de novo as mínimas coisas, os ínfimos afazeres. Conhecer a cartilha do ABC diário é não ter que precisar todo novo dia reaprender a ler. É ou não é uma bênção?

Aliás, a gente só percebe a rotina como algo sagrado quando ela nos falta. Quem, enfermo num leito de hospital, não preferiu trocar a doença pelo mais chato dia de trabalho? Quem, diante de uma tragédia pessoal, não desejou regressar ao mais “comum e normal” de seus dias? Quem, em circunstâncias as mais adversas, não ansiou pela paz e pelo sossego dos dias (quase) todos iguais? E não é preciso pensar só nas mazelas para sentir falta da famigerada rotina. Viaje pra ver. De preferência, para o exterior. E por mais de quinze dias. Passadas a empolgação com as novas paisagens e a avidez por provar os pratos típicos, você já estará se chateando por dormir numa cama que não é a sua, por ter de entender e fazer-se entender numa língua que também não é a sua, por sentir falta do tempero da sua comidinha básica. Num mundo cada vez mais “personal”, já parou pra pensar que a rotina é a coisa mais pessoal que a gente pode ter? Todo mundo tem, ou deveria ter, uma rotina pra chamar de sua. Porque tudo nela, na verdade, é seu: seus hábitos, seus costumes, suas manias, seu jeito de ser e de fazer as coisas todas.

Pensando bem, talvez seja por causa desse sentimento de pertencimento (minha rotina me pertence), quase maternal, que rotina sempre me pareceu uma palavra tão feminina. Inspira cuidados e até _ por que não?_ uma certa devoção. A verdade é que nem sempre lhe dão o devido valor. Fosse eu publicitária, lançaria uma campanha para promover a saúde e o bem-estar através da valorização da rotina. Seria clara e objetiva, como todo imperativo na vida: “Rotina: conquiste a sua!”, “Rotina: ame a sua!”

E por falar em amor, creio que não pode haver indicador mais legítimo de uma vida bem aproveitada do que amar a própria rotina. É claro que as exceções são sempre bem-vindas, porque pelo bem ou pelo mal nos ajudam a recompor a forma como vemos o mundo. Mas a vida acontece mesmo é no dia a dia, na constância de tudo que segue seu próprio ritmo, nesse equilíbrio estável que é poder (se) repetir. Por isso, gosto quando meu dia termina com a mesma constatação do personagem de Benedetti ao fazer um balanço das suas vinte e quatro horas: “Hoje foi um dia feliz; só rotina.”

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O escritor, o mentor, o aspirante

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Moro numa casa onde nunca param de chegar livros novos. Mas não, não é uma casa editorial. É apenas uma casa onde se lê muito. Muito mesmo. Por isso, as encomendas por aqui chegam dia sim, dia também. E bem, nem sempre são novos, algumas vezes são exemplares já esgotados e só encontráveis em sebos. Mas, velhos ou novos, só quem ama muito receber livros pelo correio sabe da alegria que é quando chega o carteiro: a verdadeira happy hour.

Dentre as próximas entregas, há uma especialmente aguardada: o box com três livros de textos inéditos do mestre da crônica no Brasil, o magistral Rubem Braga. Toda essa introdução sobre livros que chegam, portanto, nada mais é senão um pretexto para dizer que todo aquele que escreve, escreve inspirado por suas leituras favoritas. Todo aquele que escreve tem um mentor.

Mentor de aspirante a escritor é, obviamente, um caso à parte se considerarmos a definição dicionarizada para o termo: “pessoa que atua como conselheiro intelectual.” Trata-se de um caso à parte porque, como se vê, um escritor-mentor não precisa _ ou, por razões metafísicas,_ não pode estar fisicamente presente. O escritor, para ser considerado mentor, só precisa ser lido e relido com verdadeira obstinação. E com a mais absoluta devoção.

Rubem Braga é meu mentor. Elegi-o desde o primeiro texto lido. Enterneceu-me que alguém pudesse descrever com tanta graça e sensibilidade o nascimento de um pé de milho. Ou melhor, de descrever o sentimento de ver brotar, crescer e pendoar, no seu “exíguo canteiro”, um “pé de milho sozinho”. “Um pé de milho” foi, pois, o meu primeiro e inesquecível Braga. Depois dele, todos os cronistas me parecem apenas esforçados aspirantes.

É que nesse aspecto, sou categórica: para ser grande é preciso ser inigualável. Por isso, há tão poucos grandes. E eles jamais serão igualáveis entre si. Um grande é um grande e ponto. A sua grandeza reside em ser único, ímpar, absoluto. E só.

Mas se assim é, de que nos serve aspirar ou ter um mentor? Ora, há que se pensar que até mesmo os grandes tiveram lá as suas aspirações. Sem aspiração não há ação, sem ação não há resultados. Serve para qualquer coisa na vida. Até para escrever.

Sendo assim, aspiremos. E que nossas aspirações nos sirvam, se não para sermos também grandes, ao menos para perseverarmos em nossos esforços e contínuos aprendizados. Afinal, como bem nos alenta e nos incentiva outro dos grandes, “talvez seja melhor assim: não ter alcançado o pináculo então, é uma boa razão para continuar subindo. Como um dever que nasce de dentro e porque o sol ainda vai alto.”*

*José Saramago, em excerto colhido na crônica “A minha subida ao Evereste”, em “A bagagem do viajante.”

 

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O que melhora o mundo

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O que melhora o mundo

Cris M. Zanferrari

Todos os dias a vida ou o universo, _ou ainda, como diria Caio, “isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus”_ nos dá provas de que o mundo pode, sim, ser um lugar melhor simplesmente porque na vida da gente há gente que melhora o mundo.

Dia desses, ao usar o transporte público, reparei que alguns passageiros ao desembarcar agradeciam ao motorista e ele lhes respondia algo que me era inaudível da poltrona onde estava. Quando chegou minha vez, repeti o agradecimento, porque é o que se deve fazer quando um serviço nos é prestado. E então pude finalmente ouvir as palavrinhas mágicas do condutor: Fique bem! Aquela despedida me surpreendeu. Não era um adeus ou um até logo, era antes um cuidado, uma cordialidade auspiciosa. Desci do ônibus com uma certeza: aquele motorista, com o seu “Fique bem”, melhora o dia de muita gente.

Outro dia precisei fazer exames e fui atendida por uma médica extremamente atenciosa, falante e simpática. Sua conversa me distraiu do desconforto e da fragilidade de ser ali, naquele momento, o seu objeto de análise e investigação.
Saí da clínica com uma certeza: aquela doutora, com sua atenção e delicadeza, ameniza o dia de muitos pacientes.

Hoje mesmo cheguei a saber de uma senhora que, para lidar com o agravo de uma fibromialgia nos meses de frio no Sul, costuma fazer de Fortaleza o seu lar até que o inverno se vá. Na capital cearense, ela se dispõe a juntar todo o lixo que encontra à beira do mar durante as caminhadas diárias que faz. Com um saco plástico e uma obsessão por “não poder ver” sujeira, essa senhora deixa a praia mais limpa e bonita para muita gente.

Já deve ter percebido o leitor que não estou a falar de grandes feitos ou projetos, nem estou a exaltar alguma espécie de genialidade ou coisa assim. Estou falando de gente como a gente, de gente que melhora o dia dos outros sendo quem é, sendo como é. Simples assim. Gente de bem, de caráter, de boa vontade, de boa-fé. Gente que devolve o dinheiro do troco a mais, gente que respeita a faixa de segurança, gente que segura a porta do elevador ao ver alguém se aproximar, gente que dá passagem no trânsito, gente que dá ‘bom-dia’ e pede ‘com licença’, gente que se importa com bichos e plantas, gente que se importa com gente. Sei que na maioria das vezes não é fácil, que há os que andam na contramão da cortesia, da gentileza, da bondade, da honestidade. Essa gente certamente ainda tem muito o que aprender, mas, honestamente, quem não tem?

Na maioria das vezes, quando melhoramos _voluntária ou involuntariamente_ o dia de alguém, estamos mesmo é melhorando o nosso próprio dia. E, é claro, há aqueles que, muito mais involuntária do que voluntariamente, salvam o mundo sem saber que o salvam. São vocacionados para a grandeza das atitudes gratuitas e desinteressadas, para a delicadeza da cordialidade, para a beleza da espontaneidade, e para a graça da maior originalidade possível: a de ser quem se é. São pessoas como os gratos, os condescendentes, os artistas, as pessoas comuns do poema de Borges. Sendo simplesmente quem são, fazendo simplesmente o que fazem, “essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.”

E gente assim não apenas melhora o dia da gente. Gente assim nos inspira e nos ensina aquilo que não consta em nenhum manual de instrução: ser gente de bem. Principalmente, de bem com a vida.

 

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Seleta de Letras: Alberto Manguel

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Quem lê Drummond sabe: “palavra puxa palavra.” Da mesma forma, livro puxa livro. Mas e o que dizer de um livro que puxa vários outros? É o que acontece com “Os livros e os dias” do argentino que se naturalizou canadense, Alberto Manguel. O subtítulo fornece as pistas do que vamos encontrar: “um ano de leituras prazerosas”. Isso porque o autor, ao organizar sua imensa e vasta biblioteca na casa nova, se detém a reler algumas de suas obras prediletas_ uma ao mês, de junho de 2002 a maio de 2003_, e a comentá-las em seu diário. É um belo guia de leitura para quem aprecia conhecer novos autores ou para quem deseja revisitar já velhos conhecidos.

Lendo esse pequeno grande livro, (re)descubro o que em Manguel de “Lendo imagens” e “A cidade das palavras” me pareceu logo uma evidência: há, por detrás do escritor, um leitor incrivelmente apaixonado. Manguel descobriu o prazer de ler (pasmem!) aos três anos de idade, e nunca mais parou. Sua biblioteca particular tem estimados mais de trinta e cinco mil livros! É entretenimento o bastante para toda uma eternidade, mas o leitor voraz que ele é parece não carecer de tanto tempo assim. É que, a bem da verdade, nem todos os livros que lá estão são dignos de sua leitura e qualquer um que tenha livros na estante sabe que “um livro não tem necessariamente que ser lido para cumprir a sua função, basta-lhe poder ser lido, ser leitura em potência”, isto é, a simples possibilidade de o ler consiste em uma “forma secreta de leitura”, como bem observou Manuel Antônio Pina.

Ainda durante a leitura de “Os livros e os dias”, dou-me conta dos livros que ainda desejo ler e daqueles que são imperativos de uma releitura. Dou-me conta também de que há uma pequena e bonita semelhança entre o livro de Manguel e essa seção do blog. É a bem-intencionada tentativa, através de citações, de fazer brotar no leitor desses excertos o desejo pela busca da fonte, do original, da íntegra da obra citada. É a vontade de que esses pequenos fragmentos sejam convite para que se leia mais e melhor, para que a palavra continue a puxar palavra e para que os livros puxem_ com constância e sem cessar_ muitos mais livros.
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Aqui, alguns trechos para “puxarem” as próximas leituras ou releituras de cada um de nós.

“A leitura é uma conversa. […] em muitos momentos ele [o leitor] sentirá a necessidade de pegar um lápis e escrever as respostas nas margens de um texto. Esse comentário, essa glosa, essa sombra que às vezes acompanha nossos livros favoritos, estende e transporta o texto para o interior de um outro tempo e de uma outra experiência; empresta realidade à ilusão de que um livro fala a nós (seus leitores) e nos faz viver.” (pág. 10)

“Talvez, para que um livro nos atraia, ele precise estabelecer, entre a nossa experiência e a da ficção _ entre as duas imaginações, a nossa e a que está impressa_, um vínculo de coincidências.” (pág. 25)

“Borges, quando indagado se acreditava em Deus: “Se a palavra Deus significa um ser que existe fora do tempo, não estou certo de acreditar nele. Mas se significa algo em nós que está do lado da justiça, então sim, acredito mesmo que, a despeito de todos os crimes, há um propósito moral no mundo.” (pág. 45)

“O tempo é circular, dizem esses eventos; depois da morte de alguém converso com outro alguém que se lembra dele, ou que quer saber algo a seu respeito; construímos o muro do jardim com as pedras que caíram do celeiro; o que não lembro mais está ali, em algum lugar, em uma das páginas cuidadosamente numeradas de um de meus livros. E eu, claro, vou desaparecer; o novo muro também vai desmoronar; os livros se dispersarão. Mas aquilo de que todos nós fazemos parte, uma parte pequena que seja, vai continuar, estável sob as estrelas. E, aos olhos de um escultor cinzelando a pedra, o todo ficará tanto mais belo com a nossa ausência.” (pág. 55)

“Sempre escrevo em meus livros. Quando os releio, não consigo imaginar por que julguei certa passagem digna de ser sublinhada, ou o que eu quis dizer com um determinado comentário.” (págs. 65-66)

“Os velhos truísmos ainda valem: que violência gera violência; que todo poder é abusivo; que o fanatismo de qualquer tipo é inimigo da razão; que propaganda é propaganda mesmo quando tem a pretensão de nos mobilizar contra a iniquidade; que a guerra nunca é gloriosa, exceto aos olhos dos vencedores, que acreditam que Deus está do lado dos grandes batalhões. Talvez seja por isso que lemos, e que em momentos de trevas voltamos aos livros: para encontrar palavras para o que já sabemos.” (pág. 69)

“Na porta da minha biblioteca escrevi uma variação da divisa da abadia de Thelême, de Rabelais: LYS CE QUE VOUDRA (‘Leia o que quiser.’)” (pág. 103)

“Em turco, a palavra muhabbet significa ao mesmo tempo “conversa” e “amor”. Para ambos se diz: “fazer muhabbet”. Gosto da ideia da conversa como uma janela para o coração ou a mente de uma pessoa.” (pág. 114)

“[…] a observação de Stevenson: ‘Nossa missão na vida não é ter sucesso, mas continuar a fracassar com a melhor das intenções.’” (pág. 143)

“A fé não deve estar sujeita às provas da razão. A fé não combate a razão; ela simplesmente se afirma criando um lugar vazio para si própria. É nesse vazio, acreditam os místicos, que Deus pode entrar.” (pág. 154)

“Presumimos que o que nos dá prazer deve dar prazer aos outros; na verdade, todos acabamos nos dando conta de que nosso círculo particular de companheiros de leitura, daqueles que compartilham nossos amores íntimos, é muito pequeno.” (pág. 203)

“[…] o grande poeta peruano César Vallejo escreveu em seu caderno de notas: ‘Se, na hora da morte de um homem, toda a compaixão dos outros homens se juntasse para impedi-lo de partir, esse homem não morreria.” (pág. 207)

“Tenho a impressão de que, ao ler, estou tomando notas, sem saber, para aquilo que um dia vou vivenciar, ou para aquilo que um dia vivenciei mas não fui capaz de compreender.” (pág. 209)

MANGUEL, Alberto. Os livros e os dias: um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

 

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Palavra de Cecília Meireles

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Sou, desde sempre, fascinada por dicionários. Dicionário nunca foi livro de se encontrar alguma coisa. Dicionário é livro de se perder, de se embrenhar, de se deixar levar. Acontece assim: vou buscar uma palavra no dicionário, mas meu olho quer vagabundear. Vejo aquele monte de palavras aninhadas e começa a perdição. As palavras me chamam, me imploram para serem lidas e conhecidas, para serem iluminadas. Não me contento com a palavra buscada quando há tantas mais palavras ali, se oferecendo, se insinuando num verdadeiro harém de sentidos e significados.

Pode o leitor imaginar, portanto, meu êxtase quando da chegada de um novo dicionário à minha estante: o “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa: ideias afins / thesaurus”. Um dicionário de ideias afins é diferente de um dicionário de língua porque naquele as palavras aparecem relacionadas por sinonímia, por uma relação semântica existente entre os vocábulos e expressões. É uma verdadeira rede tecida por analogia e semelhança, lugar para se brincar e se admirar de tudo o que uma língua pode produzir em termos de sentido e significância.

“O amor aos dicionários […] é um traço infantil no caráter de um homem adulto”, diz Chico Buarque de Hollanda ao citar Milorad Pavic na apresentação deste Dicionário Analógico. Confesso que foi um alívio descobrir que é permitido ser sempre criança diante de um dicionário. Deve ser porque criança não se envergonha de estar sempre pronta a descobrir e aprender.

Por isso, com toda licença, vou-me agora ao meu novo playground.

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O livro da solidão

Cecília Meireles

Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: “Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta…?”

Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: “Uma história de Napoleão.” Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio… Pode ser um passatempo…

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo… E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém…

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números…

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas…

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores…

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

MEIRELES, Cecília. Melhores Crônicas: Cecília MeirelesSão Paulo: Global, 2003.

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Ver e Ouvir Cleonice Berardinelli

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Manuel Bandeira, para quem a única palavra essencial é “Amor”                                                   

Quem me conhece sabe: eu me maravilho com as palavras. Leio e releio certos poemas com o deslumbramento de quem vê o mar pela primeira vez. Maravilhada é meu estado de ser diante de um verso como: “Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se inclui a sedução”. Por isso, meu encantamento vai de Manuel, o Bandeira, a Manoel de Barros sem pertencimento algum, isto é, sem que-se-me-dê por períodos histórico-literários ou teorias da literatura. Gosto mesmo é desse palavreado poético pelo puro prazer estético e contentamento que o poema me traz. É isso: sou amante das palavras. E “porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe porque ama” é que dispenso academicismos e enquadramentos literários.

E se iniciei a falar de maravilhamento é porque a fala de Dona Cléo [Cleonice Berardinelli] me despertou uma inominada alegria. Que graça, que delicadeza, que elegância ela põe nas palavras! Seu jeito doce, lúcido e apaixonado de dizer o que diz é um espetáculo que nos faz saber: a vida é toda feita de palavras. E as palavras, a se revestirem de poesia, dão sempre algum sentido e beleza à inescapável condição humana.

Ouçamos, pois, as palavras apaixonadas e apaixonantes de Cleonice Berardinelli.

POUSA A MÃO NA MINHA TESTA

Manuel Bandeira

Não te doas do meu silêncio:
Estou cansado de todas as palavras.
Não sabes que te amo?
Pousa a mão na minha testa:
Captarás numa palpitação inefável
O sentido da única palavra essencial
_Amor.

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