Citação · Literatura · Livros · Resenha

“Cascudinho” e “Bestão”: história duma amizade

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Por Cris M. Zanferrari 

“Um homem é o que são as suas cartas”, diz a epígrafe de Alceu Amoroso Lima no prefácio do livro “Câmara Cascudo e Mário de Andrade: cartas, 1924-1944”.

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“Um homem é o que são as suas cartas.” Dito assim pode parecer exagero ou reducionismo. Mas basta que se leia a correspondência trocada entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade ao longo de vinte__ sim, 20!!__anos para que se conheçam os homens por trás dos escritores. Sim, porque está tudo lá: como viviam, o que pensavam, as dúvidas sobre o processo de criação, as dificuldades financeiras, os problemas familiares, as alegrias e as “tristuras” (para usar o linguajar de Mário) da vida de cada um e o alicerce sobre o qual construíram a longeva amizade: a mútua admiração e o autêntico amor e interesse pelas brasilidades.

 É curioso notar que esse diálogo epistolar teve início antes mesmo de os escritores se conhecerem pessoalmente, o que só aconteceu durante uma inesquecível viagem de Mário ao Nordeste, passando por Natal, onde finalmente se encontrou com “Cascudinho”. A partir daí, a correspondência entre os amigos ganhou ainda mais fôlego e chegou ao compadrio com o convite de Câmara Cascudo para que Mário apadrinhasse o pequeno Fernando Luís.

 Do somatório dessas cartas, fica um fidedigno retrato da própria história do Brasil, da sociedade e da política, da vida literária no país e das venturas e desventuras de quem tem por missão maior deixar o legado de seus escritos. Mas de tudo, o que mais fica é a ideia de que a amizade é um grande farol a iluminar o escuro dos dias, como se lê em carta do autor de Macunaíma: “[…] me é doce ver como os passos da vida vão se fechando em torno de nós, a amizade vai se cerrando, os laços se amarrando e a gente pode nessas redes firmes sossegar um bocado do que vai lá fora.”

É quase certo que quem tem apreço pela leitura de cartas de consagrados escritores busca encontrar, para além do cotidiano narrado, um certo lirismo, algum material de linguajar literário, um certo respingo poético. Nesse sentido, Luís e Mário nos entregam algumas pérolas, em especial na forma de comunicar seu recíproco afeto: “ roubo tempo de mim pra dar pra nós dois”(Mário); “aceite os bons dias” (Luís); “Eu tomo o que é meu em V._ uma parte grande espírito e de pensamento. […]Pertenço aos de casa. Primeiros no coração e últimos na mesa.”(Luís); “não vale a pena a gente ficar triste das invenções da saudade, quando já este mundo só por si nos dá tantos milhões de tristuras”(Mário); “abençoá-lo [ao afilhado], isso é de todos os dias, sentimento que está naquela permanência ardente com que a gente ama todos os dias, todas as horas, mãe, mulher, filho, amigo, mesmo sem dar atenção.” (Mário)

Há, entretanto, algumas passagens enfadonhas nas quais_ por mais que nos esforcemos_ sentimo-nos desalojados do lugar da conversação, o que é totalmente compreensível se considerarmos que estamos a “bisbilhotar” um diálogo alheio ocorrido em contexto a nós extemporâneo. Esse mesmo estranhamento se dá algumas vezes em relação ao vocabulário, mas, neste caso, o efeito acaba por ser até mesmo cômico, como quando Cascudo se despede dizendo “Tenha V. três costelas partidas por um acocho, sequaz” ou quando se dirige a Mário tratando-o por “bestão querido”.

As quase 400 páginas de “Câmara Cascudo e Mário de Andrade: cartas” trazem, ainda, as fotos que acompanharam algumas das missivas e uma série de anexos com artigos dos escritores. Trata-se de um material que tanto pode servir ao leitor ávido por conhecer a subjetividade de cada autor quanto ao leitor interessado em pesquisar aspectos históricos da cultura brasileira. A um e outro, resta aconselhar: leiam, pesquisem, mas façam-no com  curiosidade. Com a “curiosidade simples e humilde de só mesmo saber mas muito amar.”

 

 

Citação · Literatura · Livros · Para inspirar · Resenha

“Escolha o seu sonho”

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“Tudo palpita em redor de nós, e é como um dever de amor aplicarmos o ouvido, a vista, o coração a essa infinidade de formas naturais ou artificiais que encerram seu segredo, suas memórias, suas silenciosas experiências. A rosa que se despede de si mesma, o espelho onde pousa o nosso rosto, a fronha por onde se desenham os sonhos de quem dorme, tudo, tudo é um mundo com passado, presente, futuro, pelo qual transitamos atentos ou distraídos.” 

É de trechos como esse, tocados por pequenos acordes de uma melodia existencial, que se extrai a força e a beleza da prosa poética de Cecília Meireles.

Cecília tem um olhar de pura ternura sobre as coisas, o mundo, a vida. Em cada uma das 45 crônicas integrantes de “Escolha o seu sonho” se encontra uma mesma doçura, uma mesma esperança alicerçada. Dos temas mais cotidianos ao seu breve encontro com Faulkner em um congresso, nada escapa ao olhar atento, reflexivo e poético de Cecília. 

Mas que não se engane quem pensa que um olhar assim tão doce não comporta as mazelas do mundo. Cecília tudo vê, e parece até mesmo antecipar o tempo em que vivemos nós quando diz que toda a massa humana se julga detentora da razão e que de “tal abundância de razão é que se faz a loucura”, e por isso “a vocação das pessoas, hoje em dia, não é para o diálogo com ou sem palavras, mas a balas de diversos calibres.” 

Sim, Cecília é atual, atualíssima, atemporal. E mesmo quando nos faz ver que “o demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune”, jamais o faz sem deixar um rastro de afabilidade e esperança na raça humana porque, afinal, “É quase sempre assim: sobre uma adversidade, abre-se a flor da poesia.”

E se a literatura de Cecília nos ajuda a viver é precisamente porque alimenta em nós a capacidade de sonhar.

Escolha também você o seu sonho. 

Escolha ler Cecília! 

 

 

Amar a casa · Coisas da casa · Decoração de interiores · Decoração do lar · Design e decoração · Livros · Para inspirar

A Casa

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A CASA

Cris M. Zanferrari

Cuidar da casa, amar a casa, casar com a casa numa relação que se renova a cada dia, todos os dias.

Sou, definitivamente, uma “homebody”, uma pessoa caseira, em bom português. Minha casa é meu refúgio, espaço sagrado de bem-viver, de poder ser quem se é, de andar descalço, de acender incenso, de sentar no chão, de abraçar o cão e colher afeto. Aqui, café passado é um mantra que se entoa para bem acordar o dia. A alquimia da casa se faz com plantas, bichos e livros. Gente que entre há que ser de bem, há que vir em paz e ir-se mais alargado, de corpo e espírito bem alimentados.

Casa, pra mim, é território seguro, lugar onde medos e angústias são domesticados pelo cheirinho de bolo assando, pelo carinho que emana das pessoas amadas, pelo conforto que vem da biblioteca, morada de amigos sempre disponíveis e doadores dos melhores conselhos. Casa é o meu sem-tempo, habitat das alegrias sem hora, onde o que conta não são os minutos, mas o que se vive, o que se faz e o que se ama. Casa é trégua do mundo, arco-íris depois do temporal, remanso, repasto, rede para abrigar o corpo e música para acalentar a alma.
Estar em casa, abençoar a casa, voltar à casa: verbos conjugados de pijama, moletom velho e um fiel par de pantufas. Lugar de se estar à vontade, de fabricar memórias, de inventar ideias. Casa é lugar-laboratório. Mudamos móveis ou objetos de lugar para experimentar uma nova sensação, testamos uma receita e experimentamos um novo sabor (ou então cozinhamos na tentativa de resgatar algum sabor da infância), impomos rotinas e ritmos à casa, a casa nos devolve os seus. Sim, lugar-laboratório. É em casa que nos experimentamos como verdadeiramente somos e como podemos vir a ser.
Por isso, casa também é território muito íntimo, confessionário de medos e de sonhos, retrato de tudo o que somos, concha que nos guarda e protege.
Por tudo isso, cuidar da casa é cuidar de si. É nutrir-se, fazendo-se cercar do que e de quem importa. É amar-se através dos objetos que contam a nossa história, que nos constituem por identidade e lembrança, enfeitando paredes ou o aparador da sala de estar.
Cuidar da casa é amar-se de uma forma palpável, visível, sensível. É tornar-se, através da casa, reconhecível para nós mesmos e para os outros.
Quem cuida da casa é porque se reconhece nela e aceita, a si mesmo, como se casa fosse: inconstante e imperfeita, porque em permanente movimento e evolução.

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Citação · Consueloblog · Para refletir

Irmanar-se (ou: sobre dor)

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IRMANAR-SE (OU: SOBRE DOR)

“[…] um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele.
Guardei a minha no bolso. E fui.”
Caio Fernando Abreu

Cris M. Zanferrari

Todo mundo tem uma dor. Parece uma banalidade de se dizer, mas da próxima vez que você começar a se sentir arrasado, deprimido, desanimado ou invejar uma postagem glamorosa nas redes sociais, achando que falta glamour na sua própria vida, lembre-se: essa pessoa, que recebeu milhares de curtidas e sorri em uma selfie para a câmera, também tem uma dor.
Não, não me compraz nem um pouco saber que todas as pessoas padecem, sofrem, que a vida dói. Ao contrário, sinto uma pena enorme de saber que ninguém, absolutamente ninguém, é imune a dor. Por outro lado, e não existindo no mundo o sofrimento, por que outra razão haveríamos de nos solidarizar uns com os outros? Pois sim, a dor existe para nos irmanarmos. Um exemplo? Tem gente que só descobre o quanto é amado quando anuncia estar com câncer. É mencionar a palavra fatídica e as pessoas em redor se mobilizam, se prontificam a ajudar, levam uma palavra de consolo, recomendam terapias diversas, rezam, oram, se fazem presentes, se (re)aproximam. Sim, a dor do outro nos comove e, de alguma forma, tira-nos do centro de nossa própria dor.
Faz alguns dias assisti __ e preciso dizer que foi assim, meio ao acaso, porque talvez não o fizesse de caso pensado__ o documentário “Gaga: Five Foot Two”, produzido e estrelado pela própria cantora, e o que vi na tela foi muito mais do que um ícone pop, foi a imagem de um ser humano fragilizado pela dor. Ok, pode até ser que o filme seja uma estratégia de marketing para promover a nova fase musical de Gaga, mas há que se reconhecer que as cenas de dor protagonizadas pela estrela passam bem longe do glamour. E se o sofrimento de Lady Gaga em nada difere do sofrimento de milhares de pessoas com fibromialgia é precisamente porque a dor não faz distinção, antes nos iguala, nos faz perceber o que realmente somos: semelhantes.
Claro, nem todas as dores se fazem visíveis, aparentes, palpáveis. Há dores psíquicas, existenciais, emocionais. Há dores inconfessáveis, inexpugnáveis, inconsoláveis. Sendo dor, dói. Além de tudo, é intransferível, tal como o próprio nome da gente. O importante é que cada um reconheça a sua porque, afinal, nada nos torna mais íntimos de nós mesmos do que a dor com que __ aprendemos ou temos de aprender__ a conviver.
E por falar em convivência, importa notar que toda dor é incomparável. Jamais pense em minimizar a dor do outro ao compará-la com a de alguém que, na sua opinião, sofre mais. A dor é exclusivamente de quem a sente e quem a sente está sentindo segundo a sua própria escala de dor, que só varia a partir de si mesmo. Então, se regra há, há de ser esta: diante da dor do outro, calar. Diante de nossa própria dor, escutar. É que a dor sempre tem algo a nos dizer, a nos mostrar. A dor é uma voz. Cada um só pode ouvir bem a sua própria. Às vezes, dói baixinho; às vezes, dói alto. É uma voz que nunca se cala; no máximo, concede alguns raros momentos de trégua.
Por isso__ e parece outra banalidade de se dizer__ a verdade é que se a gente olhasse para o outro e enxergasse no fundo dos olhos, além da cor, a dor que o indivíduo carrega, talvez a gente passasse a se olhar, uns aos outros, mais demoradamente, com mais compaixão, tolerância e alguma compreensão. Talvez a gente escutasse mais, perdoasse mais, se a gente entendesse, enxergasse e aceitasse que todo mundo, neste mundo, tem uma dor. Não servindo isso de alívio ou consolo, que sirva para sermos mais irmãos.

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Para uma nova perspectiva sobre a dor, vale a pena assistir à vídeoaula da professora e filósofa Lúcia Helena Galvão. A partir dos versos do poeta libanês Khalil Gibran, ela interpreta, de forma magistral e filosófica, os ensinamentos contidos na obra “O Profeta”.

 

 

 

Citação · Literatura · Viagem

A Suécia dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

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Estocolmo

Estamos, desde ontem, na capital da Suécia, com tempo o suficiente para algumas das visitas de praxe nessa cidade-arquipélago, incluindo um passeio de barco.
Hoje, saímos a caminhar em direção a Gamla Stan, a cidade velha ou centro histórico, com construções medievais que agora abrigam, em sua maioria, lojinhas, cafés e restaurantes. Partindo do hotel, o percurso até o bairro antigo é tranquilo e sossegado, e as cenas são típicas de uma urbe qualquer: pessoas se deslocando de um lado a outro, trabalhando, se exercitando, negociando, gerindo suas vidas e carreiras enquanto nós, em família, turistamos. “Quando caminho pelas ruas duma grande cidade todo o meu desejo é deixar-me levar, sem plano nem bússola, como que erguido na crista da onda humana que coleia nas calçadas.” Ser turista é um pouco isso mesmo, meu querido Verissimo: deixar-se levar, sem nunca ter um compromisso urgente nos aguardando. Mas deixar-se levar é um luxo que só nos cabe quando o cotidiano pelo qual perambulamos não é o nosso.
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Um dos inúmeros becos em Gamla Stan

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No alto do edifício, ao final dessa quadra no centro comercial de Estocolmo, tremula uma bandeira. Não sei se ali é uma moradia, um restaurante, uma instituição ou o quê. Sei apenas que aqui, na chamada capital da Escandinávia, temos essa bandeira e eu a mesma nacionalidade: somos brasileiras. Eu, a passeio. A bandeira, bem, não sei o que faz uma bandeira do Brasil hasteada no topo de um edifício no centro da capital da Suécia além de evocar nessa turista aqui embaixo um sentimento piegas de amor à pátria. Mas a verdade é que, nesse momento, à vista desse símbolo pátrio no meio de uma rua em Estocolmo, me sinto um pouco menos estrangeira.
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Ambiente dentro de uma loja de departamentos

Não sei dizer o porquê, mas Estocolmo me parece a mais escandinava das cidades escandinavas que conheço. Suspeito que tenha algo a ver com esse design tão limpo, tão simples, tão difundido pelo mundo globalizado e que aqui se faz notar por tudo quanto é lado. Do mobiliário e decoração ao vestuário, tudo é de uma simplicidade poética. Tudo parece pensado para ter uma função prática e usual, tudo concebido dentro de uma estética visual com pouca informação, o que é um doce descanso para os olhos. Há pouco uso da cor, estampas são uma exceção, e o uso de fibras naturais e muita madeira são a exata medida do conforto e aconchego nesse país onde as temperaturas invernais são sempre negativas. Observo todas essas coisas e sinto, durante o passeio, o peso da contradição humana. Vivo num país tropical e colorido, por que então me sinto atraída por essa quase ausência de cor e por esse vento gelado que sopra em pleno verão aqui na Suécia?
Precisamente porque vivo num país tropical e colorido é que desejo o seu oposto. Um país tropical e colorido é o que haveria de desejar se eu vivesse aqui. Sempre alguma coisa nos falta, nos faz ressentidos, nos faz nostálgicos. E também disso somos contraditoriamente feitos.
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No interior do Museu Vasa

Estamos do lado de fora do Museu Vasa, o mais visitado dos museus nórdicos. Faz sol, e ninguém quer ficar à sombra. Nem mesmo essa mulher alta e magra, que agora vem se achegando de minha filha mais velha para conversar. À distância em que estou, e por causa do vento, ouço-lhes apenas uns fragmentos de diálogo, mas presumo um ar preocupado e levemente agitado no rosto dessa falante senhora. Venho saber depois: ela aguardava saírem do museu a filha e o namorado, a quem [a mãe] acabara de conhecer. Contava ela__ numa ânsia por desabafar__sobre a má impressão que o eleito da jovem lhe causara. Recém chegada de um intercâmbio na Alemanha, a menina trouxera para casa, em total intimidade, um desconhecido rapaz alemão, deixando a pobre mãe atordoada. Causou-me uma certa comoção que a angústia da mulher fosse tal que a tivesse levado a confessar-se com uma estranha à porta do museu. Quanta turbulência há de ter sacudido o edifício interno dessa pessoa para fazê-la falar, em língua estrangeira, sobre algo tão pessoal e íntimo? Afinal, fora ela mesma que o dissera: necessitava urgentemente desafogar-se através das palavras, dirigi-las a quem quer que fosse, libertá-las da prisão de seu peito. Quanto à minha filha, soube ser ouvinte e aconselhar de uma forma que eu mesma não teria sido capaz de fazer, porque os dramas maternais, incluindo os alheios, embaçam-me a visão e embargam-me a voz. Olho em redor à procura de ver outra vez essa mãe e seu desatino, de verificar se está menos desamparada após o desabafo, mas só o que vejo é uma multidão em busca de sol e luz. Ninguém quer ficar à sombra.
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Helsinque

 

O último dia em Helsinque, na Finlândia, é também o último dia desse belíssimo passeio pelos países escandinavos. É um dia cinzento, chuvoso, melancólico como as despedidas. E estamos, sim, a nos despedir. Não apenas da cidade__ que é bela, pacífica e urbanamente civilizada__, mas também de tudo o que representaram esses dias de lazer, cultura e conhecimento, boa gastronomia, e, sobretudo, de uma intensa e amorosa convivência familiar. Estamos a nos despedir desses dias de sonho e festa a que comumente chamamos férias.
Mas a bem da verdade, o último dia só não acaba se tornando ainda mais lamurioso porque, marinheiros de outras viagens, descobrimos o antídoto infalível contra a melancolia das despedidas: consiste, pois, em mal tendo acabado o passeio estarmos já a planejar o próximo. Não sei dizer se isso é bom ou se é mau, se é precipitado ou se nos impede de vivenciar de forma plena o sentimento natural que é essa tristeza de partir. Sei apenas que funciona, porque a névoa de nostalgia que ameaça se instalar, em verdade se dissipa tão logo se comece a cogitar o novo destino. E, afinal, talvez seja da natureza humana o desejo de sempre nos pormos em movimento. Ou culpa de alguma gravura que se viu na infância, como Erico bem assinalou:
“Creio que a gente viaja muitas vezes por culpa duma gravura que viu na infância, num velho livro. A ilha de Bali… Cena de rua em Hanói… Cerejeiras floridas em Washington… Voltamos a página, devaneamos um pouco, depois aparentemente esquecemos a figura. Mas acontece que a lembrança do clichê se transforma num desejo, e esse desejo fica como que adormecido durante anos e um dia, em a sorte ajudando, ele nos leva a viajar. Vamos ver a ilha mágica, as cerejeiras à beira do Potomac, a capital da Indochina __ para chegar à conclusão de que todos esses lugares e coisas não possuem na realidade metade da graça e da sugestiva poesia, já não digo das velhas gravuras, mas do mundo que elas criaram em nosso espírito. Verificamos também, quando em viagem pelo estrangeiro, que nossa casa, nossa querência __ que nos pareciam antes foscos, prosaicos e repetitivos __ ganham com a distância um lustro, um encanto tão grande como o da gravura da infância. Voltamos liricamente para a casa, julgando saciada nossa fome de horizontes. Mas um dia o velho livro nos cai de novo sob os olhos. Lá está a rua de Hanói, a ilha verde e as cerejeiras em flor. Ficamos outra vez a devanear, nostálgicos, e nosso desejo de viajar é tão grande que acaba nos jogando dentro dum trem ou dum avião, nem que seja para uma viagem intermunicipal.”

Ver o mundo · Viagem

A Estônia dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

 

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Tallinn vista do alto

 

Nunca estive na Rússia, mas a visão à distância da Catedral Alexander Nevski, em Tallinn, Estônia, faz lembrar as cúpulas da Catedral de São Basílio em Moscou, que aprendi a reconhecer através dos livros de história. De perto, sua arquitetura em estilo russo se impõe de forma ainda mais majestosa. É impossível olhar para o alto de suas torres sem sentir uma pequena vertigem. Não faço questão de adentrar esse templo ortodoxo por uma razão muito simples: é agradável olhar para o edifício daqui onde estou. Vejo-o de frente, a uma quantidade de passos suficiente para vê-lo por completo, inteiriço, e fico maravilhada diante dessa imensa construção que mãos humanas foram capazes de erguer. Mas o interior da catedral me chama, ou antes, chamam-me os que entram, chama-me o imponderável que diz: “eis que tu estás aqui e agora. Toma o momento por único, porque assim o é.” Entro, afinal. Saio dois minutos depois. O cheiro forte das centenas de velas queimando me nauseia, cheira a velório de avô numa casa de interior. O imponderável é também a infância adormecida em nós.
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Portão da Fortaleza que dá acesso à cidade antiga

Caminhar por Tallinn__ passando pelos portões que conduzem à parte antiga e lentamente ir subindo ao centro histórico__ é render-se ao turismo contemplativo, que se congraça com os artistas de rua pintando telas, tocando um instrumento musical (há muitos violinistas pelos becos e ruelas), cantando, com os pequenos e charmosos restaurantes, com simpáticas cafeterias, com lojinhas de artesanato local, com gente de boa e de bem, com tudo, enfim, que faz bem aos olhos e à alma.
Sim, Tallinn é uma cidade turística, mas de um turismo feito sem pressa, andarilho, sossegado.
Sei que daqui a alguns dias ou meses, já de volta à minha terra, num dia qualquer da semana __ algo que, neste momento ainda desconheço, irá desencadear essa memória __ lembrarei dessa praça, do jovem violinista ao cordão da calçada, das pinturas expostas nos muros da fortaleza de pedra, do tranquilo vaivém de toda a gente, e sei que, ao lembrar, hei de sentir uma doce e terna saudade. E há também de me condoer __ ou talvez, consolar__ saber que lá, nessa mesma Tallinn que meus olhos registraram encantadora e medieval, a vida segue com outras gentes a passar pelo mesmo violinista, pelas mesmas pinturas, pelas mesmas praças. A vida segue em Tallinn como em qualquer outro lugar do mundo: irrefreável.

 

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Artista de rua

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Praça Central da Old Town

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Mercado das Flores

De regresso ao hotel, há que passar pelo grande portão da antiga fortaleza e pelo curioso mercado das flores, aberto 24 horas por dia, 365 dias ao ano. Pode parecer um exagero que essas bancas floridas estejam à disposição do consumidor o tempo todo, ainda mais quando se trata de um artigo que está longe de ser considerado item de primeira necessidade e que mesmo flor comestível ainda é coisa para poucos paladares. Mas é que em Tallinn é costume quando as pessoas se visitam (e devem se visitar muito) levar flores aos donos da casa. Gentilezas que, se não justificam o incessante comércio, certamente enfeitam com cor e perfume o cotidiano.
Mas é precisamente perto desse mercado que agora se acumula uma multidão. Formam um grande cordão humano a bloquear a rua que dá acesso ao antigo portão pelo qual desejamos passar. Não há tumulto, nem agitação, há apenas esse grande grupo de pessoas que, celulares à mão, fotografam ainda não sei bem o quê. Aproximo-me e vejo que a área toda está isolada e que há duas viaturas policiais e um caminhão de bombeiros. Estranhamente, não vejo sinais de acidente ou atropelamento, tampouco de fogo. Resolvo perguntar a uma jovem que ali está o que se passa. Ela me diz que não faz ideia do que está acontecendo, mas não me parece assustada ou preocupada. É quando percebo que há um grupo de adolescentes uniformizados, atendentes de um McDonald’s, do lado de fora do estabelecimento. Deixo-me levar pela curiosidade e, vencendo qualquer espécie de timidez, abordo uma das funcionárias para saber o que há. “A polícia está procurando por uma bomba ali dentro”, ela me diz com a simplicidade de quem anota um pedido. Tento disfarçar o pavor que sua frase me provoca e procuro, sobretudo, não bater em retirada imediatamente. Prolongo a breve conversação desejando-lhe que tudo não passe de uma brincadeira de mau gosto, mas tão logo lhe dou as costas, apresso o passo em direção aos meus e toco-lhes o terror. Saímos dali à procura de um outro caminho para o hotel, a considerar que, perto do mercado das flores, nem tudo são flores!
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Ao fundo, a Catedral Alexander Nevski, à noite

 

Já agora é noite nesse país báltico onde estou à janela do quarto. O que vejo à luz crepuscular, às vinte e duas horas dessa noite de verão, é nada menos do que um espetáculo epifânico. Sim, é uma verdadeira epifania a visão desses três templos iluminados por um céu tingido de ouro, paz e silêncio. Não sei descrever o que sinto, mas é bom, é manso, é sereno. Só sei olhar e sentir. Seja essa a minha prece.
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A Noruega dos meus olhos (fragmentos de um quase diário)

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Passar da Dinamarca à Noruega é uma surpresa que se vai descortinando pelo caminho.De uma geografia plana e quase monótona a cercar a autoestrada, passamos a uma rodovia igualmente bem cuidada, mas sinuosa e estreita. Estamos adentrando terras norueguesas e não tardará a agigantar-se sobre o horizonte toda a exuberância dos fiordes.
Pela janela do ônibus panorâmico vejo esse cenário de montanha e de verde que vem dar ao pé de pitorescos vilarejos, com suas casas avermelhadas, de aberturas brancas e telhados pontiagudos. Riachos e cachoeiras bordam a paisagem de forma intermitente, brincando de se esconder e se revelar na próxima curva do caminho. Quisera ter os olhos aumentados, dilatados a poder alcançar todos os recantos desses vales incrustados à volta de cada fiorde. Diante de mim, da minha janela, o que há o tempo todo é uma tela gigante de beleza estonteante, um longa-metragem a passar, a passar e a passar. Tudo o que faço é deixar que a paisagem se mostre, se exiba, porque bem sei que “olhar, olhar, olhar é um cinema.”
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A natureza aqui parece ser sagrada, intocada e intocável, talvez porque protegida pelos lendários “trolls”, uma espécie de duendes de aparência muito feia, quase assustadora. Mas a verdade é que, com ou sem esses personagens do folclore escandinavo, o que se vê por aqui é uma natureza imaculada, sem o lixo e o descarte comumente produzidos pelo homem. É uma natureza sem interferências.
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Há, sim, campistas, pescadores, praticantes de esportes aquáticos, toda a gente aproveitando o que o curto verão nórdico tem para dar junto a esses bosques, rios e cascatas. Mas é como se não houvesse a mão humana sobre essa terra. É que os noruegueses desfrutam da natureza sem agredi-la, sem desrespeitá-la. Desfrutam-na de uma forma quase primitiva, o que quer dizer, em perfeita comunhão. O mais que deixam para trás de si, passada a época de veraneio, é o mesmo que encontraram: toda a exuberância do mundo natural.
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De todos os passeios pela Noruega, o mais impressionante é navegar pelos majestosos fiordes, esses dedos de mar que avançam pelas gigantescas montanhas rochosas. Nada sei sobre as leis que regem o universo, mas há uma aura de mistério e sacralidade por entre esses penhascos invadidos por um mar silencioso. Talvez seja isso também: se há um som no silêncio, é aqui que se pode ouvir. Quanta mansidão, quanta placidez, quanta serenidade emana desse espetáculo natural que o tempo esculpiu. Admirando esse colosso da natureza, só consigo pensar à moda de Adélia: o fiorde na minha mirada / ou é Deus/ ou é nada.
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Criança feliz e fantasiosa, eu vivia mesmo era para o Natal. Na verdade, ainda hoje, os dias de dezembro são sinônimos de uma alegria quase infantil que me invade o coração e a casa. Deve ser por isso que tão facilmente posso me imaginar vivendo no interior da Noruega: por esse espetáculo de vermelho e verde que são as casas rubras junto à natureza, a parecer um Natal de ano inteiro.

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Encontro Oslo, a capital, ligeiramente mudada (também eu?!). Não lembrava que fosse assim tão cosmopolita, o calçadão principal repleto de rostos mestiços, indianos, muçulmanos, ciganos. Há pedintes _ poucos, mas há_ sentados rente às paredes dos prédios. Não importunam os passantes, não se acercam, não os seguem. Marcam sua presença humildemente sentados, com olhar de súplica e com pequenos cartazes numa língua que me é enigmática, e que se faz acompanhar por fotos de crianças ou de algum outro familiar que logo imagino ter ficado distante, num país talvez em guerra. Alguns entoam uma espécie de cântico ou reza, e dessa língua estranha só consigo sentir que vem um apelo, um pedido qualquer a um deus ou aos homens, e me parece _ céus!_ que nem um, nem o outro está a ouvir.

 

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Escultura no Vigeland Park

Oslo, com suas praças floridas, sua alvíssima Ópera, sua moderníssima Estação Central, seu badalado cais do porto, seu visitadíssimo parque de esculturas inigualáveis, retratando o ciclo da vida humana, essa Oslo, que conheci há exatos quatro anos, continua linda. Mas a mínima lembrança daquela fração de sofrimento e miséria humana rente às paredes de seu calçadão principal, ainda ferem meus olhos e maculam _ inexoravelmente_ a cor desse fim de tarde.
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Um passeio por uma cidade nunca é completo sem uma visita a seus museus ou às galerias de arte. É pela história e pela arte de um povo que se chega o mais perto possível de conhecê-lo, isso no caso de não se dispor de um ano sabático para se deixar ficar e viver como vive um local. Por isso hoje amanheci contente: a agenda do dia me reserva dois museus _ e alegria suprema: são diversos dos visitados quando da primeira vez por essas terras_ e a Galeria Nacional. É nesta galeria, aliás, que deponho toda a minha alvissareira expectativa: estou prestes a ver_ de perto, de muito perto_ a mais famosa e difundida obra de Edward Munch: “O grito”. Sim, esse mesmo, o que inspirou o popular emoji usado nas redes sociais.
Nunca entro em uma galeria de arte sem desejar ter feito um melhor aproveitamento das aulas escolares sobre todos os períodos e mestres da pintura. Hoje, minha professora daquele tempo é também uma de minhas melhores amigas, artista plástica renomada, e tudo o que quero agora, enquanto subo o primeiro lance de escadas dessa imensa galeria, é que ela me perdoe pela desatenção adolescente e me ajude, me ensine a olhar. Sem o conhecimento, somos apenas espectadores; vemos mas não compreendemos, vemos mas não sabemos apreciar.

 

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Felizmente, há um jovem guia a explicar sobre algumas das obras expostas, o que já é alguma coisa. Meu olhar passeia pelos quadros e se detém nessa grande tela vertical em que uma menina, trajada de branco e sentada em uma cadeira hospitalar, com seu olhar penetrante, me intimida, me indaga. A pintura é assustadoramente real. Sinto toda a carga de uma misteriosa aflição estampada em seu rosto. Não sorri. Não há o mínimo vestígio de um sorriso em seus lábios. Tampouco há raiva ou contenção. Seu semblante é um enigma. É uma Monalisa ao fim da infância. Não chegará a adolescente, quanto mais à vida adulta. Deixará de viver antes mesmo de ter vivido. Se é mito ou verdade, tudo o que sei a respeito desse quadro é o que nos conta, num espanhol muito claro, esse guia que nos acompanha. E o que ele conta é que a infante, retratada pelo pintor norueguês Christian Krohg, de fato existiu, e ali se encontrava já em fase terminal de uma tuberculose que acabaria por levá-la pouco depois de concluída a obra de arte.
Seguimos parando o tempo todo a fim de observar, contemplar e ouvir as explanações sobre outras obras até chegarmos, finalmente, diante da angústia humana expressada por Munch em sua obra mais célebre. Ouvida a interpretação da obra, podemos já fotografá-la, porque, sim, não basta ver “O grito”, é preciso registrar que se esteve aqui, junto dele, na Galeria Nacional de Oslo. Nesse instante, penso em Gabriel García Márquez e seu “Viver para contar” e não resisto, diante da quantidade de selfies em frente ao quadro, a intitular a contemporaneidade da cena: “Viver para postar.”
Saio da galeria impressionada e não é com a obra que aqui vim ver. É antes com a obra que me viu, que me tocou: a desse pintor naturalista e sua menina enferma. De forma inevitável, acabo por comparar: o que acontece quando lemos um livro, acontece também quando vemos uma obra de arte: em essência, é a nós mesmos que vemos; é a nós mesmos que lemos.
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