Felicidade acessível

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FELICIDADE ACESSÍVEL

Cris M. Zanferrari

Poucas, pouquíssimas coisas nesta vida são de graça: abraços, festa nos cabelos, sorrisos, olhos nos olhos, pequenas ternuras e gentilezas. E porque são totalmente gratuitas, temos uma inclinação a não lhes dar o devido valor. Acontece com muitas coisas, e é o que acontece também com a leitura. Livros, por exemplo, são incrivelmente acessíveis. Estão aí: nas escolas, nas bibliotecas públicas, na casa de amigos, na nossa própria estante. Chegam até nós, no mais das vezes, por um empréstimo, por doação ou em forma de presente. Aliás, quem presenteia com livros faz mais do que dar um presente, faz-se a própria presença. Ofertar um livro é ofertar uma companhia, é iniciar um diálogo, é promover um encontro__ não raras vezes, do leitor com ele mesmo.

Quem costuma ler não apenas sabe, sente. Sente nitidamente os benefícios todos que a leitura traz e, sobretudo, passa a se sentir melhor, a se conhecer mais e a ter mais esperança. É que os livros, os bons livros, têm esse fantástico poder de nos sequestrar de nossa própria realidade, de nos transportar para um outro universo, e de nos devolver ao mundo real mais fortes, mais otimistas e menos acomodados. Um bom livro nos comove, nos demove, nos situa. Um bom livro, assim como a primavera, põe mais cor e poesia em nossa vida.

Tantos são os benefícios e benesses da leitura que enumerá-los é tarefa já muito bem-feita por inúmeros educadores e estudiosos. A mim, mera leitora,me convence e me basta aquele que considero o mais definidor e definitivo dos argumentos: o de que a leitura é uma forma acessível de felicidade*. Parece tão simples quanto de fato é. Há sempre, em algum lugar, um livro à espera de ser colhido, à espera de promover a felicidade. Basta que façamos o movimento de apanhá-lo, de reservar-lhe _ o que quer dizer reservar-nos_ um momento do dia, e de lê-lo com o cuidado e a entrega de quem está a se dedicar ao ser amado. Para que isso aconteça, muito pouco é necessário. De novo, gratuidades: bem acomodar-se, aquietar o ambiente e a mente, silenciar o celular, abster-se de conversas e redes sociais, direcionar o abajur e os pensamentos. Uma vez imerso no livro, enredado pelas teias de sentidos das palavras, descobrirá ao final da leitura que um pequeno milagre sucedeu: por um indizível espaço de tempo, “suspenderam-se as lamentações” e “deteve-se o mundo.”

É o que acontece quando se lê com prazer e por prazer: sentimo-nos arrebatados pelo texto_ seja um romance, um poema, um conto ou umacrônica_ e esse arrebatamento nos lança para além de nós mesmos. O mundo que gira é apenas aquele que dá voltas às palavras; o outro, o mundo dito real, inexiste no exato instante da leitura atenta. É que o momento da leitura é de profunda introspecção, porque tudo o que acontece no livro é dentro de nós que verdadeiramente acontece. E é por isso que o que acontece através da leitura, sobretudo da leitura de literatura, é pura terapia. Acessível como o próprio livro na estante.

E se assim é, então abrir um livro nada mais é do que habilitar-se a ser feliz. Custa muito pouco, custa quase nada. Pensando bem, custa só querer.

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*Foi o escritor argentino Jorge Luis Borges quem o disse. Borges, um ávido e apaixonado leitor, recusou-se a abandonar essa felicidade quando uma doença hereditária o fez perder a visão. O que fez o célebre escritor para não se ver privado da leitura? Contratou um jovem acadêmico para que lesse para ele!


Gente querida do Mania,

Esse texto saiu em primeira mão no http://www.consueloblog.com e lá, intercalado com o texto, há fotos belíssimas do fotógrafo Steve McCurry, que estão no livro “On Reading”. Vale a pena conferir!

E mais: abaixo da foto que ilustra este post, vocês podem ter acesso ao primeiro capítulo do livro.  É sobre como a literatura auxilia no processo do envelhecimento humano. Espero que vocês gostem!!

 

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É verão, mas faz inverno (ou: Seleta de Letras: Luiz Sérgio Metz)

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É bruto o calor. São 37 graus de prostração, sede e suor. Sem brisa do mar, e ainda o mormaço varrendo as calçadas depois da súbita pancada de chuva.

Quem diz que gosta do verão que venha vivê-lo ao Sul. As temperaturas que aqui fazem, não as fazem como lá. Lá onde, mesmo? Lá pras bandas do propagandeado nordeste, com suas praias exuberantes e seu calor deleitável. Aqui não. Aqui o calor é literalmente prova de fogo, com a camada de ozônio mais danificada do país. Com a sensação térmica mais abafada que panela de arroz. Gaúcho quando gosta do verão é só por modo de justificar uma saudade da estação mais fria do ano.

A verdade é que acabo de ler “Assim na terra” e não sei se é o livro ou o calor infernal que me faz desejar o retorno do inverno, mas anseio pela estação dos ponchos e das geadas com a mesma intensidade com que sobem os termômetros pelo pampa afora.

É que preciso urgentemente reler o livro de Luiz Sérgio Metz sob o aconchego de uma manta, ao pé de uma lareira e com uma cuia de mate numa das mãos. É que preciso recriar a poesia do instante, da frase que é verso quando diz: “Se o tempo vestisse certamente seria sobrepeliz de pelúcia para usar na vasta noite do sul.”É que preciso do “Inverno, flor de paina fria” para reacender o lume do meu coração. Sim, à moda de Adélia, só melhoro quando faz frio.

Só o frio tem o condão de nos levar à introspecção. Tudo no inverno se recolhe, se entoca, se concentra. A vida acontece do lado de dentro. É dentro _ de si e da casa_ que se agasalham as memórias, se contam acalorados causos, se aquecem as mãos e as almas. As horas passadas junto do fogão a lenha tecerão reminiscências de calor e afeto, de infância e de saudade. O frio é um texto que se lê ao avesso, ou seja, por dentro.

Em outras palavras: ler a obra de Metz requer essa mesma interiorização que nos exige o mais rigoroso dos invernos. No livro, como na casa, há frestas, frinchas, pelas quais resvalam sutilezas e devaneios, e por isso convém sempre perguntar: “Seria ‘lá fora’ um lugar além de nossas paredes?” Da mesma forma, convém fazer silêncio: “Quem pode ficar a sós com sua alma?”

“Assim na terra” não é livro. É lugar. É o próprio inverno, instando ao recolhimento, chamando à vida interior. O narrador e seu interlocutor, Gomercindo, fazem lembrar um pouco o próprio Riobaldo e seu compadre Quelemém, cavalgando e filosofando não pelas Gerais, mas pelo pampa gaúcho. Dentro de um galpão, o Pensário, é onde se desfiam lembranças, divagações, tergiversações: legítimas veredas. Diadorim, se há, converteu-se “no estojo de um camafeu” de onde as pequenas mãos acenavam e de cujas “bordas da fotografia o clima ia trabalhando um debruado que alcançava o contorno do corpo, como molestado por vitiligo. O mofo não impedia a vida na imagem.” Sobre esse amor, Gomercindo arremata com um pedido e um conselho dirigidos ao narrador: “Aonde a palavra alcança eu a visitei. Um assédio de tropos, a perda do foco e do conjunto. Isso tudo também passou. Gostaria que um dia tu levasses flores a esse retrato. E se um dia tiveres um, esquece-o. Vive o objeto do retrato. Ela é o sujeito. Esquece, portanto, o sentido. O sentimento é maior. Esquece-te para que ela surja. Gostaria que levasses a flor do linho. Ela gostava dessa, mais que de outra. Se puderes, planta-o. Depois dele, não há o azul.”

Mas há ainda outra coisa a se dizer: não espere o leitor encontrar esclarecimentos na narrativa de “Assim na terra.” Há, antes, uma fina cerração a encobrir o texto, camadas nebulosas de sentido e, sobretudo, uma densa, transbordante e onipresente poesia. Cada frase mais parece um verso, porque Metz dispôs da linguagem como um artista dispõe do pincel diante da tela: de modo a criar algo inteiramente novo, inusitado, e surpreendentemente belo. “Assim na terra” é o quadro de uma paisagem interior à espera de ser desbravada pelo leitor.

Lá fora, 37 graus de absurdo calor. Aqui dentro, o livro de Luiz Sérgio Metz inaugura o inverno. E prepara a alma para a mais aconchegante das estações.

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Colhi “versos” no jardim de poesia que é “Assim na terra.” Entrego-os ao leitor na esperança de que ele busque, algum dia, visitar o jardim original.

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“Deus nos fez com pressa, as mãos para o alto e o olhar para dentro, poucos no começo e poucos no fim.” (pág. 34)

“Saber também é um exercício de paralisação corajosa.” (pág. 74)

“A juventude é um merecido mergulho que às vezes damos num rio rolando sobre pedras.” (pág. 80)

“Olhar para trás na despedida é incluir um tempo em outro. A saudade que desce na lágrima no espaço de uma vidraça no tempo de uma viagem é mesmo pensamento. Pensamento ligado ao tempo, mas não é tempo. Durar sequer é tempo, mas pode ser amor.” (pág. 110)

“Tudo palavras, elas nos sustentam. Só elas penetram o corte, são o atalho. Elas desordenam, elas aparentam, aparecem, e somem nas essências. Gotas de apojo pingando na caneca. Buscamos alcançar o que intuímos, um ideal de nome para essa coisa, que já não mais está, ficou a palavra da coisa, e a palavra que muda é a que mais acompanha a coisa e a transforma.” (pág. 133)

“Há muito o que se fazer em terra, e ler sobre o mar também é ser do mar.” (pág. 147)

“A terra terminava bem perto, e assim na terra logo começava o céu. Por isso, na minha infância as coisas ainda desciam do céu para a terra e Deus, de vez em quando, fresteava a reza no quarto. Demorávamos a crescer, e como! As botas nos aguardavam novas em suas idades jovens. Um dia as usaríamos. Esse dia chega como todos os outros. Tardio.”(pág. 153)

“Talvez o fazer mude o sonho. O que não existe diz do que existe. […] Tudo na noite ressoa. Tive um livro que extraviei. Tratava de um povo que não conseguia mais usar sua linguagem, pois o conteúdo das palavras-chave fora alterado ou esquecido. Mas no texto havia uma esperança e numa altura da narrativa testemunha: um lugar é habitado e habitável quando dele se pode ter saudade, sempre e somente saudade.” (pág. 204, parágrafo final do romance.)

 Fonte: METZ, Luiz Sérgio. Assim na terra. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Outra vez o Natal

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POEMA DE NATAL

Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos __

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

 

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos__

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio.

 

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço

Um verso, talvez, de amor

Uma prece por quem se vai __

Mas que essa hora não esqueça

E por ela os nossos corações

Se deixem, graves e simples.

 

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poeisa

Para ver a face da morte __

De repente nunca mais esperaremos…

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas

Nascemos, imensamente.


 

Outra vez é Natal. Que seja doce, suave, terno, como tanto desejamos. Que seja de esperança, de alento, de resiliência, como tanto necessitamos. Mas que seja, sobretudo, tempo de afeto, de paz, de amor, como tanto merecemos. Que assim seja.

Feliz Natal pra todos!

 

 

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Better done…

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Olho ao meu redor e reparo: coisas esperam. Inúmeras coisas. Coisas-afazeres, coisas-telefonemas, coisas-decisões, coisas-prazos, coisas-compromissos, enfim, um sem fim de coisas aguarda a marcha do dia. E o soldado que mora em mim quer cumprir todas as forças-tarefas com igual vigor. Como se fosse uma coisa_ humana e militarmente_ possível. Coisa que não é.

E por pensar nessas coisas todas, acabo por lembrar de uma máxima da cultura norteamericana que diz: “Better done than perfect.” Ok, a frase pode até soar como uma desculpa para o descuido, o mal ajambrado, o popular “feito nas coxas”. Mas olhada com mais apuro e menos preconceito, pode-se ver aí um belo incentivo para a passagem da total inércia à ação. Nada é mais paralisante do que a ideia de que tudo precisa ser realizado à perfeição. Desejar que as coisas sejam ou fiquem absolutamente perfeitas nos impede de chegar a fazê-las porque esmorecemos antes mesmo de começá-las.

Isso serve também para o ofício de escrever. A busca pelo texto perfeito, a escolha da palavra certa, a exigência para com a forma, a preocupação com a relevância do que se vai dizer, a obsessão com a originalidade, a frenética procura pelo estilo próprio, tudo são pedras que, se tomadas por montanha intransponível, impedem o caminhar. Mas há que se caminhar, sobretudo porque as coisas todas clamam por realização. A vida  é movimento.

Por isso, hoje o texto saiu assim: um exercício de desprendimento, de abandono da cruel concepção de excelência, um exercício de aceitar a imperfeição. Uma coisa ao menos feita e não mais à espera. Uma coisa da qual não se pode dizer que falhou, porque falhar é sempre e só: deixar de acontecer.

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“Saber que será má a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. Essa planta é a alegria dela, e também por vezes a minha. O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distração de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida.”

Fernando Pessoa, na voz de Bernardo Soares, em trecho colhido no “Livro do desassossego.”

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Carta aberta a Valter Hugo Mãe

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Caro Valter,

Precisei vir aqui te dizer: chorei.

Chorei o quanto se pode chorar à leitura de um livro. Talvez mais.

Faz alguns dias que virei a última página de “Homens imprudentemente poéticos”, mas o livro permanece aberto em mim. E descobri: tu és o próprio Itaro. És o verdadeiro artesão das palavras; tu és aquele que nos dá olhos de ouvir. Somos todos os leques teus, canas toscas a receber o pincel das tuas bem traçadas palavras. Tu és o próprio Saburo. Somos nós o bosque que envereda por abismos de fealdade, desatino e incompreensão, a receber a beleza das palavras que tu plantas em nós para cultivar um jardim de embelezar o mundo.

Tu segues sendo o Benjamin e o “homem mais triste do mundo”, tu és o próprio Baltazar Serapião, o Senhor Silva e todo o seu “resto de companhia”, tu és o Crisóstomo e a Isaura, a Maria da Graça e a Quitéria, a Halla e o Einar. Tu levas a humanidade inteira em ti, como a levam todos os homens, à diferença de que tu o sabes. Tu te tornaste maior do que tu mesmo porque tu és já a totalidade das tuas obras.

Eu sempre pensava que a beleza fosse algo assim, da ordem do irrepetível, incapaz de se revelar em repetida vez. Pensava que “A desumanização” fosse o último grau dessa beleza, o cume de uma montanha que só muito poucos estão destinados a alcançar. Pensava que a beleza se comportasse como um milagre de salvação a causar-nos espanto, assombro e fé. Mas nunca julguei a beleza capaz de repetição.

“Homens imprudentemente poéticos” me fez ver que, de fato, a beleza não se repete. A beleza se alarga, se expande, cresce às raias do impossível, beira a margem do intangível, e nunca, nunca se consome. A beleza se amplia, se agiganta, se robustece, se plenifica. Sim, “Homens imprudentemente poéticos” é a beleza em sua plenitude.

Tu lograste vencer o desafio poético e autoimposto de escrever todo um romance à esquiva da palavra negativa, da palavra que nega sem qualquer solenidade, que é o “não”. E o fizeste de forma tão magistral que, não fosse ter ouvido a confissão de tua própria boca, teria sido difícil que eu o notasse. É este o talento do artista quando grande: convocar a mais absoluta naturalidade. A ausência do “não” “é difícil” de ser sentida, pois que a linguagem parece fluir e abundar como água jorrada da fonte: naturalmente. É mérito teu que assim nos pareça.

Valter, todos os teus livros são testemunhos vivos de que “o paraíso são os outros.” Todos os teus livros são arautos de esperança. Por isso, tenho dito e repetido que tu és um dos justos do poema de Borges. Tu, com as tuas palavras, com a tua obra, estás a salvar o mundo. E eu continuarei a ser sempre, para sempre, aquele que agradece.

Com muito carinho, vai um abraço meu.
Cris

 

 

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Mãe-Rivotril

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Mãe-Rivotril

Cris M. Zanferrari

Para a Helena

Faz pouco que descobri: toda mãe é um pouco o Rivotril de seus filhos. Rivotril, pra quem não conhece, é um ansiolítico que figura como __pasmem!__ o segundo medicamento mais vendido no país, só perdendo para uma conhecida marca de anticoncepcional. Tem efeito rápido, quase instantâneo, contra a ansiedade. Assim como ouvir a voz tranquilizadora da sua mãe.

Na verdade, enquanto os dias correm tranquilos, sem maiores sobressaltos, a gente nem lembra que tem mãe. Basta saber que ela está lá, de sobreaviso e prontidão como o salvavidas na guarita da praia. Como o remédio jogado no fundo da bolsa. Em caso de necessidade, uma chamada ou um comprimido resolvem. Ambos estão ao alcance da mão.

A diferença essencial é que mãe, além de acalmar, ainda dá colo e perspectivas. Mãe sabe onde dói, sabe por que dói, tem o dom de farejar algumas dores futuras e, por isso, sempre prescreve conselhos. Só o que mãe não sabe é que muitas vezes, pela ânsia de preservar o filho de tanta dor, ela o impede de crescer. Sim, porque crescer é dolorido, às vezes até fisicamente. Basta lembrar do incômodo que é para o bebê o nascer dos dentes. Ou ouvir falar da dor nas pernas das crianças de oito anos. Ou ainda recordar as dores mamárias das meninas na puberdade. Pois que sejam as dores de ordem física ou emocional, a única certeza na vida é a de que “viver dói até o fim.” E também por isso a única coisa que uma mãe pode fazer, às vezes, é deixar doer.

Dei-me conta dessa dolorosa verdade quando, certa feita, no meio de uma dessas ligações que filhos fazem quando a água está a lhes alcançar o pescoço, ou seja, quando estão por alguma razão qualquer se sentindo sufocados, minha filha me disse alguma coisa como “te liguei pra você se solidarizar comigo, não para me afligir ainda mais.” Naquele momento, me senti impotente, incapaz, mais ineficaz do que um Rivotril com data de validade vencida. Custou-me tempo, introspecção e alguma dor até compreender que também eu tive de ouvir palavras duras e ásperas para poder crescer. Também eu tive de aprender a ler silêncios, a recolher angústias e medos do chão da sala, e a reconhecer que cada um deve cavalgar a sua própria dor.

Além disso, há uma outra boa razão para se permitir que a dor cumpra seu papel também na vida dos filhos. É que as relações, assim como o Rivotril, também podem causar dependência. Quando nos fazemos excessivamente presentes acabamos por adentrar um território que não mais nos pertence, e tolhemos o bonito processo que é a individuação. Individuar-se é caminho que se percorre a sós, afrouxando laços, soltando gradualmente as amarras que nos prendem ao ninho. Quando aconselhamos demais, vigilamos demais, zelamos demais é como se não confiássemos a tarefa de viver à própria vida. Sim, é custoso e às vezes nos dói, mas é preciso deixá-los domar suas próprias feras, encarar seus temores, recolher sonhos espatifados contra o chão do quarto. Aliás, é preciso deixá-los sair do quarto, ganhar a casa, ganhar a rua, ganhar o mundo. Sim, é custoso e às vezes nos dói, mas encorajar a independência _a deles próprios e a deles para conosco_ é um gesto de confiança e coragem que a própria vida nos cobra e requer.

E por falar em cobrança, também eu, euzinha mesmo, reivindico às vezes uma dose ou outra do meu Rivotril que, por essa altura, está curtindo um merecido descanso numa praia distante. Mas ela sabe, eu sei, minhas filhas sabem que a uma simples ligação a distância se desfaz, o aconchego se refaz, o coração torna a ficar em paz. Da mesma forma sabemos, havemos de saber todos nós, que tudo é uma simples questão de se encontrar a justa e certa medida. Vale para o remédio. Vale para a vida.

 

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A propósito

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“Sempre desejei esta viagem, este feriado. Poder entrar por alguns dias na vida fútil e superficial dum navio… Não pensar na hora escura que a humanidade está vivendo… fugir de um mundo em que há miséria, sofrimento, ódio, carnes e almas dilaceradas… Não procurar a razão das coisas nem querer penetrar na alma das outras criaturas e muito menos na minha própria… Esquecer que existe um amanhã, e que cada partir pressupõe um chegar… Achar, por exemplo, que este oceano não é túmulo de cadáveres carcomidos nem esconderijo de submarinos traiçoeiros, mas sim o grande oceano da aventura, dos jogos de luz, das ilhas encantadas, dos iates de recreio… Poder ser por alguns dias quase como aquela bola vermelha que as mãos versáteis de duas raparigas jogam na piscina, dum lado para outro__ leve, matinal, rútila e sem consciência…
Que me seja permitido lançar ao mar o fardo da memória. Mesmo sabendo que, como o cadáver de um afogado, ele possa continuar seguindo implacavelmente o meu navio…”

Erico Verissimo, em excerto de “Gato preto em campo de neve”

 

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